Freiras, mas não santas: a curiosa história do convento do pecado

A alma entregavam-na a Deus, mas o corpo ficava cá para outras núpcias. Esta é a história do Priorado de Littlemore, a casa onde o Pecado também era rei das freiras.

Freiras, mas não santas: a curiosa história do convento do pecado
Priorado de Littlemore ficou para a História

Sensatas, calmas, caladas e irrepreensivelmente obedientes a uma disciplina que faz inveja a muito militar - assim é a figura que, com certo preconceito, nos habituamos a ter das freiras. Mas será que é mesmo esse o perfil das mulheres que se escondem nos claustros?

A história que hoje lhe trazemos vai, com toda a certeza, romper muitos ideais pré-definidos. Se nunca ouviu falar do priorado de Littlemore, vai ouvir agora. E não vai esquecer nunca mais.
 

A casa de todos os santos

Littlemore era um priorado beneditino fundado em 1111 por Robert de Sandford, um cavaleiro inglês que cedeu terras do seu condado para a construção de um edifício à medida da sua fé.

Numa fase inicial, o priorado de Littlemore dedicava as preces a todos os santos por quem Robert tinha admiração especial: Santa Maria, São Nicolau e Santo Edmundo. No entanto, nem mesmo as rezas chegaram para todos e, ao fim de alguns anos, as freiras optaram por se dedicar a um só santo: São Nicolau.

Apesar de ter começado pequeno, o priorado de Littlemore não era um convento qualquer; entre as freiras que lá viviam estavam as filhas de alguns dos mais nobres cavaleiros ingleses - e a reputação era tanta que até o rei Henrique III viria a pagar 40 xelins por ano para garantir um lugar cativo na capela do convento.

O priorado foi crescendo e, de um pequeno convento em Cherley, passou a uma das maiores instituições da região. Mais tarde viria a trocar algumas terras por casas em Oxford passou a ser, oficialmente, uma espécie de “convento VIP”.

Ali viviam os santos mais nobres… mas não os nobres mais santos.

 

Não é santo desconfiar dos santos

William Alnwick, bispo de Lincoln, foi o primeiro a pressentir que Littlemore esconderia nas suas paredes algo que não estaria exatamente conforme as regras religiosas. Em 1445 enviou John Derby, homem de sua confiança, para visitar o convento em seu nome e averiguar o que por lá se passava.

Chegado a Littlemore, Derby deu de caras com um priorado ameaçado pelas ruínas. Assustadas pelas enormes fendas que se abriam no teto do dormitório, as sete freiras que ali viviam tinham ocupado as áreas comuns do claustro para dormir, sendo que algumas até partilhavam o colchão numa intimidade muito pouco recatada. Durante o dia, o pecado da gula deixava de ser pecado e o grupo juntava-se no refeitório a saborear ricas refeições de carne.

Além das sete freiras, Derby ficou também a saber que mais três mulheres viviam em Littlemore. Não se sabia quem eram nem de onde vinham, mas tinham entrado como hóspedes, pagavam uma renda semanal e nunca mais saíram - quebrando uma regra básica comum a todos os conventos, que não podiam permitir que as visitas pernoitassem nos edifícios religiosos.

Não fosse já o cenário descrito suficientemente suspeito para Derby levar muito que contar ao bispo, ainda havia mais uma surpresa guardada para ele: havia um monge cisterciense que tinha livre passagem na entrada do claustro e vinha frequentemente visitar a prioresa, com quem se fechava durante horas - teoricamente para beber e conversar um pouco. Quando não o monge não vinha, a prioresa recebia visitas de um funcionário secular, e enquanto estava entretida a conversar… as freiras aproveitavam para, também elas, receberem as suas visitas, frequentemente ilustres académicos de Oxford.

 

Ordem no santuário!

Escusado será dizer que, perante os relatos de John Derby, William Alnwick ficou para lá de insatisfeito com a forma como Littlemore vivia o conceito religioso. Usando o poder que detinha, o bispo ordenou o fim de todas as visitas ao priorado, a expulsão das hóspedes e o cumprimento imediato das regras religiosas básicas. Depois de aproveitar o donativo de um professor de Oxford para reparar o velho dormitório, ordenou também que cada freira dormisse numa cama individual e que não mais houvesse partilhas de colchão.

 

Santos de casa… não fazem milagres

Os anos passaram em Littlemore, como passaram em Lincoln. William Alnwick deu lugar ao sucessor, o bispo William Atwater, mas também este ouviu falar de um convento onde a santidade tinha uma face alternativa. Nada mudara no convento de São Nicolau.

Em 1517 Littlemore voltou a receber uma visita em nome do bispo. Desta vez era Edmund Horde o comissário encarregue de investigar o comportamento das religiosas, sobretudo da prioresa, Katherine Wells.

Por esta altura, cinco freiras viviam no claustro. Katherine ordenou-lhes que disfarçassem o melhor possível e convencessem Horde de que tudo ia bem no convento… mas era praticamente impossível esconder as histórias escandalosas que aquelas paredes guardavam.

Só para começar, Horde começou por descobrir que Katherine era mãe. A filha nascera oito anos antes e, desde então, ambas eram regularmente visitadas pelo pai da criança, Richard Hewes, que era padre em Kent. Para garantir o dote da rapariga, Katherine tinha penhorado e vendido praticamente todos os candelabros, peças de arte e jóias do convento, deixando a instituição na penúria.

Além da prioresa, também uma das freiras tinha sido mãe no último ano; neste caso, o pai era um homem casado de Oxford. Horde estava em choque. Apresentou o relatório ao bispo e aconselhou-o a tratar do caso pessoalmente.

 

Santos forçados são endiabrados

Decidido a deixar Littlemore em ordem de uma vez por todas, o bispo Atwater convocou Katherine Wells à sua presença e interrogou-a. Apesar de começar por negar todas as acusações, a prioresa acabou por confessar que tudo o que Horde vira era verdade - e mais algumas coisas que tinham ficado por contar, porque as freiras, com medo das punições severas que habitualmente lhes aplicava, tinham tido medo de revelar.

Katherine contou ao bispo que a filha morrera quatro anos antes. Ainda assim, os objetos que roubara do convento não tinham sido devolvidos, porque - apesar de já não precisar de um dote - Katherine os entregou ao padre Richard.

Desesperado, Atwater suspendeu a prioresa do cargo e deixou Horde no comando mas, como o homem não podia entrar no convento, Katherine manteve-se em funções - só não podia fazer nada sem autorização prévia do conselheiro. O problema é que Katherine, já estava mais do que visto, não tinha problemas nenhuns em quebrar as regras… e claro que voltou a fazê-lo.



Revoltada com as freiras, que acusava de a terem denunciado, Katherine agrediu duas delas violentamente na cabeça e prendeu uma nas celas da cave. O castigo devia servir de exemplo para as outras mulheres, mas teve o efeito contrário: uma das freiras agredidas ficou tão revoltada que reforçou o mau comportamento. Levou homens para dentro do convento, organizou “brincadeiras” no claustro e ficou tão endiabrada que ninguém a conseguiu travar mais.

Irritada, Katherine ordenou que a freira presa fosse libertada e trocada pela freira endiabrada. Solidárias, outras três religiosas desceram à cave, arrombaram a porta da cela e, juntas, atearam fogo aos compartimentos. Quando a prioresa, dando conta do sucedido, veio para a rua pedir ajuda aos vizinhos, as quatro fugiram por uma janela e ficaram três semanas escondidas “em casa de amigos”.

Descarado, o padre Hewes voltou a visitar Katherine Wells em Littlemore. As freiras, completamente fora de controlo, já eram famosas na cidade por serem tudo menos bem comportadas. Afinal, o que pensar de freiras que riam na missa?

 

É o fim do sermão

Estava visto que Littlemore não tinha correção possível. Ali viviam nobres muito pouco santas, por isso mais valia acabar com o assunto de vez.

Em 1524 o Cardeal Wolsey emitiu um documento oficial que ditava o encerramento da instituição. Os terrenos foram vendidos, as freiras foram mandadas para casa e Katherine foi suspensa de todas as funções religiosas. 

Para trás ficou a história de um convento que, tendo tudo para dar certo, em tudo deu errado. Ou não. Pelo menos em Oxford ficou no ar a questão eterna: será que é preciso ser-se santo para se ser fiel?

 

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