O génio da desgraça: quando um menino prodígio sabe tudo… menos viver

Tinha talento, graciosidade, inteligência e reconhecimento, mas não tinha o mais importante. Esta é a história de Ervin, o rapaz que não sabia viver.

O génio da desgraça: quando um menino prodígio sabe tudo… menos viver
Ser genial nem sempre é positivo…

Às vezes é inevitável darmos por nós a pensar que o que temos nunca chega: não somos suficientemente ricos, suficientemente inteligentes, suficientemente capazes. Mas será que alguém tem, de facto, todas as capacidades necessárias para singrar na vida?

Ervin Nyiregyházi fazia o mundo crer que sim. Admiravelmente inteligente e inegavelmente talentoso, este menino-maravilha encantou o mundo por onde passou. Só que, no meio de tantas habilidades, Ervin sofreu com a falta daquela que será, talvez, a mais importante de todas: a habilidade para viver.
 

O nascimento de um génio

Ervin Nyiregyházi nasceu na Hungria a 19 de janeiro de 1903 e cedo começou a dar nas vistas. Filho de um cantor de ópera e de uma mãe cheia de sonhos não realizados, o menino começou a tentar cantarolar as primeiras notas antes mesmo de completar um ano de idade.

Orgulhoso do rebento, Ignácz Nyiregyházi, o pai, contava aos amigos que, aos dois anos, Ervin já conseguia decorar e cantar melodias, passando rapidamente a compor as suas próprias músicas. Aos três anos, o rapaz dominava a harmónica de tal forma que conseguia reproduzir com ela qualquer som - ou música completa - que lhe fosse dado a ouvir.

Um destino musical de sucesso parecia fácil de adivinhar: aos sete anos, Ervin deu a prova que faltava de que tinha uma capacidade denominada de “audição absoluta” - que permite o reconhecimento de qualquer nota musical ou acorde, tocado em qualquer instrumento e em qualquer momento de uma música. A facilidade com que simplesmente tocava ao piano músicas que ouvira apenas uma vez, sem errar uma única nota, deslumbravam toda a gente.

 

Talentoso ou sobredotado?

Pela altura em que Ervin exibia inegáveis dotes ao piano - tanto a reproduzir como a compor músicas com uma identidade própria -, um psicólogo, Géza Révész, pediu para o acompanhar. Entre os seis e os doze anos, Ervin Nyiregyházi foi submetido aos mais variados testes - incluindo de inteligência -, e mostrou resultados curiosos: o rapaz não era um génio no sentido de inteligência, já que nem sempre apresentou resultados acima da média; na verdade, era “apenas” um prodígio musical.

Atenta às oportunidades - e aproveitando o facto de o marido ser de personalidade muito frágil e emocional -, a mãe de Ervin entrou em ação: obrigou o filho a parar de compor e forçou-o a aprender e ensaiar apenas músicas conhecidas do grande público, para que pudesse começar a fazer concertos e, com eles, ganhar dinheiro para sustentar a família. O plano foi tão bem sucedido que, aos oito anos, Ervin Nyiregyházi tocou piano no palácio de Buckingham, num concerto privado para a rainha de Inglaterra.

A vida mais ou menos equilibrada de Ervin teve um final abrupto em 1915, quando o rapaz tinha apenas doze anos: Ignácz, o pai, sucumbiu a uma doença fatal e a mãe, autoritária como sempre, ganhou rédea solta para o dominar sem pudor e fazer dele uma fonte de riqueza. Géza Révész, o psicólogo, foi afastado da investigação e o pianista foi entregue a dois professores que deviam ajudá-lo a ficar ainda mais brilhante nas teclas.

 

O início do fim

Quando, aos quinze anos, Ervin Nyiregyházi tocou uma obra completa de Liszt em conjunto com a Filarmónica de Berlim, o mundo não conseguiu mais ficar-lhe indiferente. Estaria ali, garantiam os críticos, um justo sucessor do genial Franz Liszt, o compositor húngaro que ficara para a História. Dali à liberdade foi um passo.

O problema é que, apesar de dominar as teclas, Ervin não dominava a vida. Em 1920, um agente levou-o para Nova Iorque e conseguiu-lhe um lugar no palco do Carnegie Hall, uma oportunidade concedida a muito poucos artistas. Ali, Ervin teria a liberdade criativa que quisesse: podia tocar músicas de outros compositores, interpretá-las ao seu jeito, tocar músicas compostas por si ou até improvisar. O que importava era que ficasse visível o seu talento.

A reação do público, contudo, foi confusa; se, para alguns críticos, Ervin era inegavelmente prodigioso, para outros era inaceitável tanta liberdade artística. Onde já se vira um pianista tocar um clássico musical com uma interpretação completamente diferente da que sempre tinha sido usada? Mais do que uma ousadia, era um insulto aos grandes compositores clássicos.


 

O génio confuso

Apesar das reservas, o talento de Ervin Nyiregyházi era apreciado pelos fãs da música clássica. No entanto, o mesmo não se pode dizer da relação contrária: Ervin gostava cada vez menos do que fazia.

Na verdade, Ervin era um artista no verdadeiro sentido da palavra: gostava de improvisar, de compor, de surpreender e de variar. Tocar, vezes sem conta, as músicas que já todos conheciam deixava-o aborrecido e insatisfeito. Por outro lado, o orgulho desmesurado fazia com que detestasse ser comparado com outros pianistas - e como não compará-lo, se tocava o mesmo que todos os outros?

A vontade disruptiva do jovem acabou por levá-lo a tomar uma atitude drástica: em 1925 processou o próprio agente, acusando-o de o tratar como um artista inferior por lhe arranjar trabalhos que incluíam acompanhar cantores e instrumentistas ao piano. O tribunal não lhe deu razão e a reputação que tinha sofreu um abalo: ninguém queria trabalhar com um homem arrogante e orgulhoso.

A par do fracasso profissional - de repente desapareceram todos os convites para concertos -, Ervin vivia também uma má fase pessoal. De relações cortadas com a mãe, que acusara de abuso sexual durante a infância, o pianista vivia uma relação conturbada com a mulher com quem entretanto casara. A união viria a terminar depois de ela o atacar com uma faca, dando início a um longo, polémico e publicamente exposto processo de divórcio.

Depressão, álcool e solidão foram as vivências que se seguiram. Caído na miséria, Ervin mudou para Los Angeles e ficou a trabalhar num estúdio de cinema, onde fazia de modelo de mãos e de duplo em alguns papéis. Em filmes onde os personagens tocavam piano, eram as suas mãos que apareciam.

Pelo meio, sucediam-se os casamentos falhados. As mulheres que cruzavam o caminho de Ervin levavam, invariavelmente, todo o dinheiro que o pianista tinha, pelo que, sempre que estava solteiro, o homem dormia nas estações de comboio. Quando conhecia uma nova companheira, deixava que ela conduzisse a sua carreira, escolhendo os trabalhos a fazer; talvez por isso tenha acabado a construir um percurso sinuoso e, no mínimo, insólito.

 

O regresso do génio

Passaram-se mais de quarenta anos até o mundo voltar a ouvir falar de Ervin Nyiregyházi. Quando, em 1973, organizou um concerto numa igreja de São Francisco para recolher donativos destinados a financiar uma operação de emergência à sua nona mulher, Ervin mostrou que, mesmo tendo estado décadas sem sequer possuir um piano, há talentos que não se esquecem.

Deliciado, Gregor Benko, um representante da Ford Foundation, procurou Ervin e propôs-lhe um regresso à música original. Daria concertos, gravaria dois discos e receberia um salário regular durante dois anos. O mundo, dizia, ia gostar de reviver os acordes perdidos nos anos 30 e que por esta altura já eram praticamente impossíveis de encontrar.

Ervin Nyiregyházi voltou a ser uma estrela que dividia o mundo. Se, para uns, as interpretações do húngaro eram quase amadoras de tão estranhas, para outros o pianista era uma verdadeira reencarnação do original Franz Liszt. Voltou a casar uma décima vez e, como que por magia, a vida voltou a sorrir-lhe.

 

Morte na glória do nada

Ervin Nyiregyházi teve tudo e não teve nada. A mãe, manipuladora e autoritária, dera-lhe como única alegria na vida morrer às mãos dos nazis num campo de concentração; das dez mulheres que amara, apenas a última sobrevivera à inevitabilidade da morte; do percurso musical, ficavam felizes na memória os primeiros anos em Nova Iorque e, talvez, os últimos em Los Angeles. Entre uma coisa e outra, a vida preenchera-se de misérias.

Ervin tinha tudo e não tinha nada. Era o herói e o anti-herói, o amado e o odiado, o génio e o idiota, tudo na mesma pessoa. Morreu no dia 13 de abril de 1987, vítima de cancro, sob a auréola angelical que geralmente se concede aos grandes artistas… mas quase nenhuma das suas composições chegou a ver a luz do dia, publicada ou interpretada por qualquer pianista.

Ervin era um génio, mas um génio de desgraça. Feitas as contas, teve todos os talentos menos aquele sem o qual não podemos subsistir: o talento para viver.

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