O rei da boca cosida: a história do monarca que fechou a boca para reinar

Ser rei é um direito divino, mas há direitos que também se perdem…

O rei da boca cosida: a história do monarca que fechou a boca para reinar
Quem quer um rei tão gordo?

Reis, rainhas e reinados. São temas de novelas, de livros e de filmes, e não é por acaso que dão histórias tão boas: é que, muitas vezes, a própria realidade é tão boa como qualquer ficção. 

Um exemplo é a história do rei que hoje relembramos: monarca por direito divino, viu-se a braços com dificuldades bem terrenas. A solução para o maior de todos os males? Tão criativa como uma aventura de Hollywood: coseu a própria boca.  

O rei que nem era rei

Nasceu em berço real, mas não estava destinado a um destino tão dourado. Sancho de Leão nasceu no território que, hoje, conhecemos simplesmente por Espanha, em 935. Filho de Ramiro II, era fruto de um segundo casamento do rei - com D. Urraca - e por isso não estava na frente da linha de sucessão ao trono.

Quando, em 951, o meio-irmão de Sancho - Ordoño III, filho do primeiro casamento do rei - assumiu o trono, esperava-se de Sancho que mantivesse uma vida confortável e sem grandes sustos. No entanto, o destino deu uma volta: em 956 Ordoño morreu e o trono foi mesmo parar às mãos do jovem rapaz.

 

El-Rey, o Gordo

Sancho, que se tornou Sancho I de Leão, não era propriamente um rei muito querido pelo povo. Devorador imparável de iguarias, pesava cerca de 240 quilos e perdia toda a autonomia que dele se esperava. O cognome foi-lhe, por isso, atribuído logo nos primeiros meses: seria Sancho, o Gordo.

Esperançado de ver um líder exemplar sentado no trono, o povo começou a sentir-se inseguro. Se o rei precisava da ajuda de criados para se levantar da cama e até para caminhar na rua; se não podia andar a cavalo (que cavalo aguentava com tanto peso?)… como ia conseguir, em caso de necessidade, defender a soberania do reinado? E como conseguiria um homem tão gordo gerar descendência com alguma mulher?

Sancho não sabia reinar e a insatisfação do povo forneceu a oportunidade necessária: sedentos de poder, os nobres de Leão e Castela uniram-se sob o comando de Fernán González e depuseram-no, aclamando Ordoño IV novo rei de Leão.

 

Menino medroso

Assustado e desorientado, Sancho correu para o único lugar onde se sentia acarinhado: o colo da avó. Toda Aznárez era rainha de Pamplona e, indignada com a injustiça com que trataram o neto, comprometeu-se a ajudar Sancho a recuperar o trono que lhe pertencia por direito.

A estratégia de Toda foi, por assim dizer, pouco convencional: em vez de pedir ajuda aos seus, foi procurar o inimigo. Contactou o califa Abderramán III, regente do califado de Córdoba, e pediu-lhe que cedesse os serviços do seu médico pessoal, Hasday Ibn Saprut, com a finalidade de ajudar o neto a curar-se daquela gordura que o atormentava. Em troca, ofereceu vastas extensões de terra nas margens do rio Douro.

 

O médico do rei

Saprut não esteve com meias medidas: se o problema de Sancho era comer demais, pois então que deixasse de comer. Coseu a boca do rei com uma linha, deixou-lhe apenas um espaço mínimo entre os lábios e ditou que, a partir daí, o monarca só bebesse líquidos e infusões especialmente preparadas para ele.

Sancho ficou preso em casa e só podia sair para fazer exercício físico ou para passear, a pé, pelos jardins (inicialmente puxado por dois criados atados a cordas, que o obrigavam a andar, depois pelo próprio pé). Depois de cada sessão de exercício, o rei era levado para longos banhos de vapor - que alegadamente desprendiam e derretiam a gordura do corpo -, seguidos de pouco agradáveis massagens que estimulavam a pele para não ficar flácida com a perda abrupta de volume.

Quarenta dias passaram e, com eles, desapareceu metade do peso de Sancho. Mais leve e mais ágil, o rei passou a conseguir lutar, correr e até andar a cavalo. A relação com a mulher, Teresa Ansúrez, melhorou de tal forma que a chegada de descendência passava a ser uma questão de tempo… só faltava mesmo recuperar o trono perdido.

 

Regresso a casa

O exército pamplonês-muçulmano invadiu Zamora em 959 e, em 960, entrou em Leão para depor o rei. Sem hipótese de resistir, Ordoño IV fugiu para as Astúrias e Sancho I foi, novamente, aclamado rei de Leão.

Sancho não soube, contudo, ser fiel aos bons princípios. Esquecido do que fizeram por ele, rompeu o acordo com os muçulmanos e não quis dar-lhes as terras prometidas pela avó. O califa, claro, não ficou contente e passou a apoiar Ordoño IV, fazendo incursões militares em várias cidades para desestabilizar o reinado de Sancho.

O que Sancho rapidamente descobriu foi que, afinal, não bastava ser magro para ser rei. Era preciso saber governar, e trair os muçulmanos não tinha sido uma prova de boa diplomacia. Os nobres que não gostavam dele antes continuavam a não apoiá-lo - tanto que os condes castelhanos e galegos proclamaram independência - e o povo também continuava a não confiar nos seus dotes de líder.

Sozinho no poder, Sancho tinha os dias contados: em 966, um prato boicotado com veneno levou-o para a morte. No entanto, e ao contrário do que seria de esperar, Ordoño IV não voltou para ser rei; como Sancho tinha conseguido, finalmente, ser pai, havia agora um rapaz na linha direta de sucessão ao trono que se podia aproveitar: Ramiro III.

Ramiro tinha apenas cinco anos, mas foi coroado rei de Leão. Como era ainda criança, foi substituído nos primeiros anos pela tia, uma freira chamada Elvira Ramirez, e pela mãe, Teresa Ansúrez, que, depois de enviuvar, também recolhera a um convento.

Leão caiu, assim, nas mãos de duas mulheres e deixou nos registos uma lição de vida para os monarcas que se seguiram: não basta ter um direito divino para se governar. Um rei tem de ser um líder, e um líder não é Deus que faz.

 

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