S. Nicolau: o padroeiro de todos os santos

O nome, sabemos que não lhe é estranho. Mas será que conhece mesmo a história de S. Nicolau?

S. Nicolau: o padroeiro de todos os santos
Quem foi S. Nicolau?

Todas as imagens: Elisabeth Ivanovsky

É o “padroeiro” do Natal, veste de vermelho (ou talvez não?), é o “pai Natal real”,…

Quantas coisas já ouviu sobre S. Nicolau? Certamente muitas. E nem sabe quantas são verdadeiras, certo? Então hoje, e porque melhor momento não poderia haver, explicamos-lhe um pouco mais sobre o santo que se celebra em dezembro.

Nicolau

Nicolau nasceu no século terceiro – não se sabe exatamente em que ano – em Patara, uma aldeia que, naquele tempo, estava sob domínio grego e que, hoje, se situa do sul da Turquia, na zona costeira.

Nascido no seio de uma família abastada, Nicolau recebeu uma educação fervorosamente cristã, mas que cedo foi interrompida pela morte de ambos os pais, vítimas de uma doença epidémica. Sozinho e cheio de dinheiro, o rapaz virou-se para a melhor referência que tinha: Jesus Cristo.

Decidido a fazer do mundo um lugar mais justo, Nicolau começou a usar a fortuna que herdara para aliviar o sofrimento dos pobres e necessitados. Como consequência da dedicação a Deus, viria a tornar-se bispo de Mira ainda muito jovem – motivo pelo qual vestia de vermelho.

O estatuto de bispo não serviu, no entanto, para garantir ao órfão Nicolau uma vida pacata. Quando, em 284 d.C., o imperador Deoclécio assumiu os comandos de Roma e iniciou uma cruel perseguição aos cristãos, Nicolau foi enviado para o exílio e, depois, para a prisão.

São Nicolau

Nicolau só voltou a ter liberdade cerca de 20 anos mais tarde, quando em 306 Roma passou para as mãos do imperador Constantino. Mais tolerante com a religião de Cristo, Constantino convocou o primeiro Concílio de Niceia (atual Íznik, na Turquia) em 325. Nicolau esteve presente, junto com todos os representantes cristãos, para cumprir a missão de tentar levar os crentes a um consenso sobre a relação entre Jesus e Deus, a Trindade, o credo e a lei canónica.

Já muito velho, Nicolau ainda haveria de viver um pouco mais, até 6 de dezembro de 343 – data em que morreu e foi sepultado na catedral de Mira. A região da Anatólia, contudo, viria séculos mais tarde a ser um centro de conflitos, deixando os cristãos preocupados com a segurança da cripta. Afinal, aquele era um local de peregrinação que não se podia perder…

Veneza e Bari, duas cidades italianas, começaram então uma disputa para acolherem os restos mortais de Nicolau. Tirando vantagem das habilidades de pirataria que os caracterizavam, alguns marinheiros de Bari rumaram à Turquia e roubaram os restos mortais do santo, trazendo-os para o sul de Itália em 1043. Ali foi construída uma enorme cripta – a Basilica di San Nicola -, que se tornou um dos maiores centros de peregrinação da Idade Média e que ainda hoje pode ser visitada.

São Nicolau

Nos muitos anos que esteve no mundo, Nicolau dedicou a vida a cuidar dos outros e a aliviar o sofrimento dos mais necessitados. As suas ações – que tinha sempre sem pedir nada em troca e, por isso, as tomava quase sempre às escondidas – foram reconhecidas por muitos e valeram-lhe o estatuto de santo.

Recolhemos algumas das histórias – umas mais realistas do que outras – que se contam sobre São Nicolau.

São Nicolau, padroeiro das virgens

Reza a historia que em Mira, cidade onde Nicolau era bispo, vivia um homem em desespero. Viúvo e sem nada que pudesse chamar de seu, tinha três filhas para criar e nenhuma perspetiva de futuro.

Naquela época, a qualidade do casamento arranjado para as mulheres era diretamente proporcional ao dote que o pai lhes prometia. Ora, sem dinheiro nenhum no bolso, o homem sabia que nenhuma das raparigas conseguiria, alguma vez, arranjar marido.

Para evitar perder as três filhas – já que o destino das mulheres pobres e solteiras era a prostituição -, o homem ponderava vender a filha mais velha como escrava. Com o dinheiro conseguido talvez pudesse sustentar as mais novas e, quem sabe, até casá-las, por isso era um mal que viria por bem.

Ao saber da história, Nicolau entrou em ação. Durante a noite foi, às escondidas, até à casa onde a família vivia e atirou um saco de moedas de ouro pela janela aberta. Conta a lenda que o saco, atirado ao acaso, calhou de cair em cima de uns sapatos que tinham sido deixados na borda da lareira para secar – dando origem à tradição das botas na beira da lareira para ficarem cheias de presentes.

O presente de Nicolau resultou: usando-o como dote, o homem casou a filha mais velha. Por este motivo, o bispo repetiu o processo mais tarde, quando a menina do meio chegou à idade de casar, e novamente quando foi a vez da mais nova. À terceira, contudo, a lenda conta que Nicolau tropeçou numas roupas estendidas perto da janela e, com o barulho, acordou o dono da casa, que ficou a saber quem era, afinal, o seu benfeitor.

São Nicolau, padroeiro das crianças

O episódio que deu a Nicolau o epíteto de padroeiro das crianças ocorreu, curiosamente, muitos anos após a sua morte.

Era dia santo em Mira e as famílias festejavam na rua quando um bando de piratas árabes irrompeu pela cidade. Depois de saquearem vários edifícios – nomeadamente a cripta onde Nicolau estava sepultado – os piratas regressaram aos barcos. Pelo caminho cruzaram-se com Basilio, um pequeno rapaz que acompanhava a família nos festejos.

Basilio foi capturado como assistente pessoal do Emir. Na verdade, o rapaz era o criado perfeito: podia ser treinado e, melhor do que tudo, não falava uma única palavra de árabe, pelo que não percebia as conversas que o Emir tinha na sua frente.

Basilio ficou em cativeiro mais de um ano. Quando, vários meses depois, chegou a data de comemoração da morte de Nicolau – a 6 de dezembro -, a mãe do rapaz recusou festejar como mandava a tradição e reuniu a família em casa para, em conjunto, rezarem todos pela vida do menino. Foi aí que, reza a lenda, o milagre aconteceu.

Estava Basilio a cumprir o serviço habitual – servindo vinho ao Emir num reluzente copo de ouro – quando, de repente, se desvaneceu no ar. Na sua frente apareceu, então, Nicolau, que o benzeu e devolveu à Terra – e, de repente, Basilio “aterrou” em casa, na sala onde a família rezava e ainda com o copo de ouro na mão.

São Nicolau, padroeiro dos viajantes

São Nicolau

De Mira a Atenas era um longo caminho e requeria muitas paragens. Numa delas, três estudantes de Teologia escolheram pernoitar numa hospedaria cujo dono era tudo menos honesto.

Atraindo os rapazes para uma sala, o dono da hospedaria assassinou os três, roubou tudo o que tinham e abandonou os corpos num enorme barril de conserva de legumes.

Chegado à mesma hospedaria na noite do crime, Nicolau sonhou com o assassinato. Na manhã seguinte convocou o dono da casa, obrigou-o a confessar o crime e pediu para ver os corpos dos rapazes. Em silêncio, Nicolau passou algumas horas a rezar, pedindo a Deus que devolvesse a vida aos três viajantes para que seguissem o seu caminho. Assim aconteceu, para surpresa geral, e o bispo ganhou mais um título: o de padroeiro dos viajantes.

São Nicolau, padroeiro dos marinheiros

Era Nicolau ainda jovem quando iniciou uma longa peregrinação até à Terra Santa, com o objetivo de percorrer os mesmos caminhos que Cristo e sentir com maior profundidade a vida, a paixão e a ressurreição de Jesus.

No regresso a casa, Nicolau tomou um barco, mas a viagem foi abalada por uma grande tempestade – tão grande que os marinheiros lhe disseram que o barco não aguentaria a força da água revolta.

Nicolau ajoelhou-se no convés e rezou. Em poucos minutos, e perante o olhar de dezenas de marinheiros, parou de chover. As nuvens afastaram-se, o ventou amainou e a água acalmou. A tripulação voltou ao posto de trabalho, a embarcação cumpriu a viagem até ao fim e os marinheiros ganharam um novo patrono: São Nicolau, padroeiro dos marinheiros.
São Nicolau

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