Imagens: Bénédicte Desrus e Celia Gómez Ramos
Sónia, Conchita, Canela, Isabel, Raquel. Para muitos, estas mulheres são pouco mais do que um simples nome; para os homens da Cidade do México, são o nome que se dá à luxúria, ao prazer, à depravação de quem vende o corpo na esquina da rua. Para quem as conhece de perto, Sónia, Conchita, Canela, Isabel e Raquel são os nomes de cinco mulheres que um dia, em jeito de desfecho de uma vida cheia de erros, se viram sozinhas e na miséria.
São prostitutas e têm entre 60 e 85 anos. Algumas já não trabalham, outras ainda fazem do corpo um negócio que vai rendendo uns trocos extra no fim de cada mês. Em comum têm a urgência de desatar os nós que as prendem e de preparar a partida deste mundo. Partilham sonhos e desejos, mas também partilham um teto e, sobretudo, partilham Carmen: a mulher que as tirou da rua e as deixou ser gente.
Amores solitários
Carmen Muñoz foi, ela própria, uma prostituta. Vagueava todos os dias pelas ruas da Cidade do México e oferecia o corpo a quem o quisesse comprar. O ofício não era, de
todo, o que mais lhe agradava, mas as contas que tinha para pagar não se compadeciam com a sua dignidade.Um dia, ao voltar para casa quando o sol já começava a nascer, Carmen atravessou as ruas que lhe eram familiares e, ao contrário de todos os outros dias da sua vida, não conseguiu evitar reparar na quantidade de mulheres idosas que, escondidas sob plásticos imundos ou estendidas sobre paletes apodrecias, dormiam carentes de esperança e conscientes de que, da velhice para a frente, o mundo não seria meigo com elas.
Carmen reviu-se naquelas mulheres. Prostitutas como ela, viram o corpo envelhecer e perder mercado para as prostitutas mais jovens. Já não eram tão bonitas, tinham perdido a frescura da juventude e os corpos já não faziam virar cabeças. Era dali, do meio do lixo e da miséria, que o futuro acenava a Carmen. Era ali que, também ela, terminaria os seus dias: pobre, doente e sozinha.
Para onde vai o amor que não se vende?
A visão do seu próprio futuro naquelas mulheres deixou Carmen com ânsia de agir. A mulher queria fazer alguma coisa, queria perguntar “para onde vão as prostitutas quando não trabalham mais?” e obter uma resposta. Como a resposta teimava em não aparecer, Carmen criou, ela própria, uma solução.Foram 20 anos a lutar pelo sonho que a perseguiu desde a viagem pelas ruas da Cidade do México. 20 anos a pedir ajuda, a chamar a atenção de políticos e Organizações Não Governamentais. 20 anos sem resposta… até um dia. Corria o ano de 2006 quando Andres Manuel Lopez Obrador, presidente da Câmara da Cidade do México, ouviu os pedidos de Carmen e se dispôs a ajudar. A autarquia não tinha muito dinheiro a sobrar, mas era preciso arranjar um espaço e, pelo menos, alguma verba para começar. De qualquer forma, o mais difícil estava feito: Carmen tinha um apoiante.
A luz depois da escuridão
De todos os espaços que a autarquia tinha espalhados pela cidade, o antigo museu do boxe foi o que melhor pareceu encaixar nas necessidades da instituição que Carmen queria criar. Andres Obrador cedeu-lhe o espaço e algum dinheiro para a alimentação das mulheres - o resto teriam de ser elas a conseguir.
Em poucos meses, Carmen trazia para a sua nova casa as primeiras prostitutas recolhidas na rua. Tinham entre 60 e 85 anos e todas traziam histórias macabras para contar: infâncias roubadas, violações, agressões, tráfico de seres humanos. Considerando estas experiências, Carmen percebeu que a casa que agora geria só podia ter um nome com uma simbologia forte, por isso escolheu batizá-la como casa Xochiquetzal - a deusa do amor e símbolo das mulheres, adorada pela cultura Maia.Desde 2006, a casa Xochiquetzal já acolheu mais de 250 mulheres. Algumas vêm e tornam a partir, capazes já de ter uma casa e uma vida autónomas; outras vêm e ficam até que a morte as leve para um lugar melhor. As instalações da casa Xochiquetzal têm capacidade para acolher, em simultâneo, 60 mulheres. Neste momento, todas as camas estão cheias.
E voltam a bater corações
Desengane-se, no entanto, quem pensa que a vida em Xochiquetzal se resume a descansar os pés no sofá. As mulheres que aceitarem a ajuda de Carmen são obrigadas a aceitar também as regras da casa, que, não sendo difíceis, podem ser desafiantes para quem se habituou a uma vida inteira de regras quebradas.A primeira regra é óbvia e previsível: em Xochiquetzal não entram homens. Podem ser maridos, namorados, amigos, vizinhos ou irmãos, mas lei é lei e ali é para cumprir. As mulheres não estão, no entanto, presas: a casa tem um jardim interior e todas as habitantes são livres de sair para a rua e entrar as vezes que quiserem. Ninguém lhes pergunta onde vão, fazer o quê nem com quem, mas há uma chamada que é feita todas as noites à mesma hora e quem não estiver presente perde a vaga na casa.
O serviço de apoio de Xochiquetzal também inclui a ajuda de assistentes sociais e até da polícia. Ao longo dos 40 ou 50 anos que quase todas as mulheres trazem de prostituição, papeis, documentos e certificados foram desaparecendo. Praticamente nenhuma tem comprovativos do que estudou, do que trabalhou ou sequer de quando e onde nasceu. É preciso refazer todos os documentos pessoais, que serão necessários para encontrar emprego - outro dos serviços de Xochiquetzal.Além do apoio psicológico, as assistentes sociais tentam encontrar para as mulheres um emprego - fora da prostituição, claro - que lhes permita recomeçar. Em alguns casos a missão é cumprida com sucesso e as idosas chegam mesmo a montar negócios próprios.
Carmen reconhece, contudo, que é assustador para qualquer pessoa recomeçar aos 70 anos. É impensável para uma mulher que foi prostituta durante 50 anos tentar agora viver de outro ofício que não implique a venda do corpo. Assim, as mulheres que continuarem a prostituir-se depois de entrarem em Xochiquetzal não são punidas: aplica-se apenas a regra do “não vos perguntamos onde vão, mas também não tragam homens para a casa”.
De contas feitas com a vida
O trabalho que Carmen tem feito na casa Xochiquetzal tem vindo a dar frutos, de tal forma que a própria população da cidade se tem mostrado sensibilizada. Várias personalidades e artistas locais alinharam em campanhas de recolha de fundos e alimentos, e existe já uma associação civil que paga todas as despesas da casa e consegue, assim, complementar a escassa ajuda que a autarquia conseguiu dar.Dentro da casa, esta nova perspetiva fez-se sentir não só pela maior abundância de produtos mas, sobretudo, pela nova oportunidade que muitas prostitutas receberam: em muitos casos, as mulheres tinham abandonado as famílias e nem sabiam dos filhos, que as renegavam pela profissão que tinham. Com este novo movimento social e esta onda de tolerância face às antigas prostitutas, há idosas que estão a conseguir ser novamente aceites pela família e reconquistar o coração dos filhos que tinham deixado para trás.
Amores idosos e famosos
O projeto da casa Xochiquetzal ganhou, nos últimos anos, tão grande fama que captou a atenção de duas fotojornalistas: Bénédicte Desrus e Celia Gómez Ramos. As duas colegas dedicaram seis anos completos a acompanhar e a fotografar as habitantes da casa Xochiquetzal, documentando as atividades, o estilo de vida, o passado que lembravam e os sonhos que lhes alimentavam o futuro. O resultado já foi publicado em livro - mas se o quiser ler vai ter de dominar o espanhol ou o francês.Entretanto, Carmen e a casa Xochiquetzal continuam a ser um porto de felicidade onde as prostitutas da Cidade do México podem atracar depois de uma vida inteira à deriva pelas ruas da capital. Ali o amor está velho demais para se vender - mas a esperança de não virem a morrer sozinhas numa esquina suja rejuvenesce a cada dia que passa.