A imperatriz da morte: quando um trono vale mais que muitas vidas

Muitos sonhos e nenhum pudor: esta é a história da mulher que mudou a história da China

A imperatriz da morte: quando um trono vale mais que muitas vidas
Wu Zetian foi a única imperatriz na história da China

Conhece a expressão “vale tudo, até arrancar olhos”? Pois bem: Wu Zetian não conhecia, mas sem saber levava o conceito muito a sério.

Esta imperatriz chinesa gravou o nome nas páginas da História chinesa - e escreveu-as com muito sangue à mistura.
 

Pobre em dinheiro, rica em sonhos

Wu Zetian nasceu na China rural, não se sabe exatamente em que ano do século VII. Filha de um general, assim que chegou à idade adulta foi levada pelo pai para o palácio imperial, para ser concubina do imperador.

Os registos asseguram que Wu chegou ao palácio em 636. No poder estava a dinastia Tang, representada por Taizong, que não reconheceu à jovem valor especial: Wu foi relegada para quinta categoria de concubina - a mais baixa de todas - e trabalhava a fazer limpezas no palácio.

Acontece que, com ou sem a colaboração da sorte, Wu Zetian sabia bem o que queria: chegar ao imperador e tomar-lhe o lugar. O sonho era difícil, para não dizer impossível, mas valia a pena tentar. A rapariga só precisava de um plano.
 

O plano A

A grande vantagem de ser criada no palácio da dinastia Tong era ter acesso a um dos aposentos mais inacessíveis: o quarto do imperador. Wu ia regularmente trocar-lhe os lençóis da cama, e rapidamente arranjou forma de chegar ao contacto com o monarca, começando a "fazer acontecer" uma aproximação.

A confiança, contudo, não bastava. Na frente de Wu estavam todas as outras concubinas do palácio - que eram 28 e estavam acima dela na hierarquia. Foi preciso recorrer a alguns esquemas menos éticos para ir subindo, mas nem foi preciso chegar ao topo.

Pouco tempo depois de Wu por o seu plano em marcha, o imperador adoeceu e não se previam melhorias. A pensar no futuro, Wu desistiu de lutar pelo lugar cimeiro e passou ao plano B.
 

O plano B

Com o imperador doente, Wu Zetian sabia quem seria o sucessor no trono chinês: o filho do imperado, Gaozong. Foi precisamente com ele que iniciou um romance num verdadeiro tempo recorde.

Ditavam as regras chinesas que, após a morte de um imperador, as concubinas deviam recolher a um convento para que nunca mais homem algum lhes tocasse, em respeito pela memória do defunto. Wu, no entanto, não estava disposta a abdicar de um sonho em favor da tradição e fugiu do convento para voltar ao palácio.

Quando lá chegou, o cenário era favorável: Gaozong, já imperador, estava perdido de amores por Xiao, uma concubina com quem tinha já três filhos. Desesperada, a imperatriz Wang viu o regresso da jovem Wu como uma oportunidade: talvez o marido se embeiçasse por ela e se afastasse um pouco da amante.

Atenta às oportunidades, Wu firmou trato com a imperatriz e, secretamente, preparou mais um plano: o plano C.
 

O plano C

Com o aval da imperatriz, estava escancaradamente aberto o caminho para Wu Zetian seduzir o imperador Gaozong e ter, no espaço de pouco tempo, o primeiro filho com ele. Tal como a imperatriz queria, o marido tinha esquecido Xiao… mas ficara perdidamente apaixonado por Wu - de tal forma que cedo lhe dera novo bebé, desta vez uma menina.

É por esta altura que o maquiavélico plano C começa a concretizar-se. Minutos depois do parto e quando estava já sozinha no quarto, Wu pegou na filha e, com as próprias mãos, sufocou-a.

O objetivo do assassinato era sórdido, mas resultou: chorosa, Wu garantiu a Gaozong que a imperatriz e Xiao se tinham unido para matar a bebé, num ato cruel de ciúme e inveja. Revoltado, Gaozong mandou prender as duas mulheres. Não havendo mais concubinas no topo da hierarquia, Wu era assim promovida ao mais alto cargo na China. Tornava-se imperatriz.
 

O plano D

Gozava Wu de pleno poder no seio da dinastia Tang quando Gaozong, tomado pela bondade, lhe confessou a vontade de perdoar a ex-imperatriz e a amada Xiao. Wu respondeu com mais um plano: o plano D.

Foi um processo rápido e discreto: antes que fossem chamadas à presença do imperador, Wu mandou que as duas prisioneiras fossem raptadas e amputadas: sem mãos nem pés, as mulheres foram largadas nos enormes depósitos do vinho e afogaram-se. Estava aniquilada a ameaça.

O plano E

Sem rivais, Wu Zetian estava no topo do poder na China, mas sabia bem que ainda havia obstáculos a ultrapassar - e o primeiro era Li-Hong, o seu filho mais velho.

Li-Hong era, pela lei, o próximo imperador a governar a China. Quando um imperador morria, o poder passava para o filho mais velho, e nunca para a mulher. Ora, já vimos que Wu não estava disposta a deixar que a tradição se metesse no seu caminho…

Certo dia, momentos depois de ter comido uma refeição ao pé da mãe, Li-Hong sentiu-se mal e morreu com sintomas de envenenamento. Claro que ninguém se atreveu a apontar culpados - à exceção, claro, de Wu. 

A maquiavélica imperatriz aproveitou a oportunidade e resolveu eliminar dois adversários de uma vez só: acusou o segundo filho de ter assassinado o irmão, de ter traído o império e de vários outros crimes que o obrigaram a exilar-se para se proteger. Menos um adversário.

O plano F

Tempos depois de ficar praticamente sozinho, o imperador Gaozong morreu. De acordo com a lei, era o filho mais novo de Wu - único herdeiro sobrevivente para substituir o irmão exilado - que devia sentar-se no trono, mas a mãe pressionou-o e obrigou-o a abdicar do cargo. Estava cumprido o plano F e Wu era agora a imperatriz Zetian, primeira (e única) mulher a governar o império chinês.
 

O último capítulo

O reinado de Wu foi, apesar do espírito maligno da mulher, bastante positivo para a evolução da China. Consciente da necessidade de educar para produzir, a imperatriz instituiu políticas de apoio à agricultura e ordenou que se distribuíssem manuais pelos agricultores, para os educar.

A distribuição dos manuais contribuiu, consequentemente, para o desenvolvimento da imprensa. A China tornava-se um país letrado e culto, e a prova última foi a criação de dois novos caracteres chineses, em homenagem à imperatriz - são os caracteres Zetian.

O reinado de Wu não foi, contudo, aceite de bom grado por ninguém. Nos últimos anos em que ocupou o poder, a mulher viu-se envolvida em vários escândalos sexuais, incluindo relatos de que se fechava no quarto com dois concubinos durante dias a fio para satisfazer os seus desejos.



Aproveitando a oportunidade, o segundo filho de Zetian - que tinha sido exilado e casou entretanto - voltou para casa e ocupou o trono que era seu por direito. Wu Zetian morreu muito pouco tempo depois, mas, ao contrário do que era habitual com os imperadores, a mulher não teve direito a grandes honras de Estado e, muito menos, a bons e saudosos relatos históricos.

Como prova de nunca lhe terem reconhecido valor, os historiadores ergueram a tradicional grande laje na frente da sua sepultura, mas nela - onde deviam constar os relatos dos grandes feitos conquistados ao longo da vida - nada escreveram.

Wu Zetian morreu no esquecimento e foi engolida pela História. A memória da sua crueldade, no entanto, jamais foi esquecida - tanto que nunca mais mulher alguma ocupou o cargo mais alto do império chinês.

 

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