Conhece bem os seus amigos? Se respondeu que sim, talvez seja melhor pensar duas vezes. É que nem sempre as pessoas são como nós pensamos… e não estamos a falar de caráter.
Dorothy, a bela
1914, Oklahoma City, Estados Unidos da América. Distraído com o estalar da primeira Guerra Mundial, o mundo não reparou que nascia, no seio de uma família endinheirada, uma menina que viria a questionar muitas certezas absolutas.Dorothy Lucile Tipton era uma criança numa família perfeita. O pai, elegante e charmoso, era aviador e pilotava carros de corrida nas horas vagas; a mãe, conhecida pela extrema beleza, era dona de casa mas vivia rodeada de empregados que a poupavam das maçadas domésticas.
O quadro idílico viria, contudo, a borrar a pintura muito cedo. Quando Dorothy tinha apenas quatro anos, os pais divorciaram-se e nenhum quis assumir a educação da menina. A criança acabou por ser enviada para Kansas City, aos cuidados de uma tia que a assumiu como se fosse sua filha.
Música no coração
Não havia melhor momento nem melhor lugar para Dorothy Tipton viver. Em 1920, Kansas City era a cidade do Jazz, cheia de espetáculos, bandas e com música a ecoar a cada esquina. Apaixonada por música, a tia passou à criança o amor pelas melodias e até a ensinou a tocar piano.Na escola, Dorothy aprendeu a tocar órgão e saxofone e ainda aperfeiçoou as técnicas ao piano. Convencida de que era da música que o futuro lhe acenava, a jovem manteve-se fiel aos instrumentos e, aos 16 anos, já frequentava clubes de jazz pela cidade.
Quando, finalmente, atingiu os 18 anos e a possibilidade de se emancipar na totalidade, Dorothy Tipton foi atrás do seu sonho: pôs pés ao caminho e foi bater de porta em porta, pelos bares e clubes de Kansas City, a pedir emprego como pianista ou saxofonista. Do lado dos empregadores, as críticas chegavam na forma de rasgadíssimos elogios ao seu talento, mas… a resposta era sempre a mesma: não.
Não era uma regra, não estava escrito em lado nenhum, mas era uma prática instalada e à qual ninguém tencionava fugir: o jazz não era para meninas. Por muito talentosa que fosse, Dorothy era uma mulher - bonita, ainda por cima -, não podia simplesmente integrar uma banda Jazz.
Troca o corpo, fica a alma

Desapontada mas longe de desistir de um sonho por conta de uma regra implícita, Dorothy reuniu os primos em casa e pediu-lhes ajuda. Estávamos em 1933, a rapariga tinha 19 anos e há um ano que todas as portas se fechavam. Era hora de resolver de vez o seu “defeito” - e se o problema era ser mulher, então… mulher deixaria de ser.
Com o cabelo cortado rente, o peito escondido por uma gaze apertada em volta das costelas, uma roupa nova e uma prótese no entrepernas, Dorothy Tipton deixava de existir e passava a ser, para o mundo, Billy Tipton, o músico Jazz.
Para trás ficaram todas as provas da menina que Billy tinha sido um dia. Os documentos de conclusão do secundário, não os pediu; todos os documentos que fizera daí em diante, teriam a identidade masculina.
Claro que, não tendo mudado de cidade, os amigos próximos de Billy sabiam quem ele era na realidade - mas, sabendo o propósito do disfarce, não o denunciaram. Assim, Billy logo conseguiu conquistar o que Dorothy falhara: na primeira audição que fez, encantou o líder de uma banda e foi contratado como cantor de fundo na posição de tenor.
O para sempre começa agora
Sempre disfarçado, Billy Tipton tocou com várias bandas. Inicialmente, era Billy na rua e Dorothy em casa, mas, à medida que o disfarce se foi enraizando, Dorothy acabou mesmo por deixar de existir e Billy era homem dentro e fora das quatro paredes.
Nos anos 50, impulsionado pelo talento imenso, Billy Tipton juntou dois músicos e formou um trio, o Billy Tip Tipton Trio - ao qual se veio a juntar mais tarde um novo elemento, transformando o grupo em quarteto. O sucesso foi quase imediato, de tal forma que a banda foi convidada a gravar um disco numa das maiores produtoras do país. No entanto, Billy teve medo que a exposição excessiva denunciasse a sua verdadeira identidade e teve de recusar. Ainda assim, viria a gravar dois álbuns em produtoras mais pequenas.
O amor da mentira
Apesar de Billy Tipton viver como transgénero, não se sabe ao certo qual a orientação sexual que mantinha. Na verdade, o músico é hoje considerado como um exemplo prático da diferença entre sexo - caraterísticas biológicas - e género - comportamentos e caraterísticas reconhecidas socialmente como típicas de um sexo.O que se sabe é que Billy teve, oficialmente, três mulheres, sem que nenhuma delas algum dia descobrisse que estava numa relação homosexual.
A primeira, Non Earl Harrell, foi apenas uma namorada. Neste caso, foi
relativamente fácil para Billy manter escondida a sua verdadeira identidade, porque a intimidade era praticamente inexistente e Non Earl era reconhecidamente egocêntrica, focada mais em si mesma do que nas outras pessoas.O disfarce tomou, contudo, novos contornos na relação seguinte. Betty Cox tinha apenas 18 anos quando cruzou o caminho do músico e logo se apaixonou pelo seu jeito suave e delicado. Apaixonado, o casal juntou-se e passou a viver como marido e mulher. Como foi, então, possível que Tipton não tivesse sido descoberto? Betty conta ao New York Times que tudo não passou de inocência sua. No lugar de onde vinha, o sexo era um tabu e nunca era tema de conversa. “As mulheres não andavam nuas por aí”, conta, “usávamos sempre um robe. Quanto fazíamos sexo não deixávamos as luzes acesas”.
Billy e Betty ainda chegaram a tentar conceber um filho - ou pelo menos assim pensava Betty - mas a jovem acreditou que sofrera um aborto e de nada desconfiou. Após alguns anos a percorrer o país, acabou por se cansar de acompanhar Billy e voltou sozinha para casa. Era o fim daquele romance.
O caminho para o amor, contudo, não terminava ali. Numa temporada em que trabalhou em Spokane, Billy viria a conhecer Kitty Kelly, uma stripper conhecida como “a Vénus irlandesa”. Neste caso, inacreditável seria que Kitty não desse conta da sexualidade do companheiro, mas… a dançarina sofria de uma doença que a impedia de ter relações sexuais e, por isso, o casal nem sequer partilhava o quarto.
Porque a relação ficou séria, Billy resolveu dar asas ao sonho de ser pai. Aproveitando o pretexto da doença de Kitty, o músico iniciou um processo de adoção e trouxe para casa três filhos - John, Scott e William - que ainda hoje recordam em entrevistas um “pai perfeito e sempre presente”, muito diferente da maioria dos homens na época. Também eles nunca souberam que o pai, afinal, era uma mãe.
Quando a máscara cai
“Estás tão profundamente cravada no meu coração que te tornaste parte de mim. Seria difícil imaginar a vida sem ti”, escrevia Billy Tipton a Kitty Kelly, agora Ms Oakes (o nome real da dançarina). Só que a delicadeza do músico, que apaixonara a mulher, seria a mesma que o trairia.Pai presente e amigável com os meninos, Billy era frágil demais para ser um pai de verdade. Assim, quando os rapazes entraram na fase difícil da adolescência o artista não foi capaz de se impor e de os manter dentro das regras. Kitty sentiu-se desiludida e optou pelo divórcio. Billy ficou sozinho.
Vivendo sozinho, Billy deixou de usar os elementos de disfarce quando estava em casa. Velho e cansado, estava desgastado pela artrite e por um enfisema que nunca fora tratado por causa da sua recusa em ir ao médico - que, durante uma avaliação, certamente descobriria o seu tão bem guardado segredo.
Assim, sozinho e desistente, foi na manhã de 21 de janeiro de 1989 que Billy Tipton, agora com 74 anos, colapsou no chão da sua roulote em Spokane, vítima de uma úlcera que rebentara de repente. Assim que o descobriram, os filhos chamaram uma ambulância. Era o ato final da peça.
Para tentar reanimá-lo, os paramédicos deitaram-no de barriga para cima e afastaram a roupa. Debaixo dela, um peito saliente ficou à vista. Billy Tipton, o famoso Billy Tipton, era uma mulher.
A novidade rapidamente correu os jornais. As mulheres, os amigos, os filhos de Tipton - ninguém sabia da sua verdadeira sexualidade. E agora? Era Tipton uma mulher lésbica? Um transgénero? Ou não passava de uma mulher com sonhos maiores que tudo?
A verdade é que, além de ficar para a história como músico talentoso, Tipton tornou-se uma referência e um caso de estudo para a psicologia e o ícone de uma mensagem inegável: o género é a sociedade que o faz. E cada um vive o que preferir.