É um passado que custa trazer nas memórias, mas que tem de ser lembrado. Não há muitos anos, o mundo ainda dividia as sociedades em dois e aceitava com normalidade que uns nasciam para mandar e outros, menos afortunados, nasciam para servir.
A escravatura submeteu milhões de negros a vidas inteiras de servidão e infelicidade, que se prolongavam geração atrás de geração. Seria este o destino do homem de quem lhe vamos falar - não fosse ele um teimoso sonhador para quem uma vida livre valia o risco da morte.
Filho de escravo, escravo será
Robert Smalls nasceu em 1839, em Beaufort. na Carolina do Sul. A mãe, Lydia, servia na casa de um homem branco, John McKee; do pai nunca nada se soube - o que rapidamente fez nascer os rumores de que, como a maioria dos patrões, John teria violado a própria escrava e por isso Robert seria seu filho. No entanto, nem McKee perfilhou Robert nem Lydia alguma vez desvendou a verdade.Porque vivia na casa principal, Lydia tinha uma vida menos má do que os outros escravos da época. Não era livre, mas tinha um quarto e uma cama para dormir ao lado do pequeno Robert, a quem foram também concedidas algumas regalias. No entanto, a escrava temia que uma vida longe do horror poderia tornar Robert um homem conformado, pelo que, 12 anos depois de o ver nascer, o enviou para um campo de trabalho em Charleston.
Robert juntou-se à comunidade escrava e passou a viver como todos os negros da época: em condições mais miseráveis do que qualquer humano alguma vez sentiu. Não tardou, por isso, a ver crescer a raiva dentro de si: a crueldade a que os escravos eram sujeitos arrepiava-o e alimentava o desejo de um dia lutar pela liberdade. Os sonhos de Lydia começavam a ganhar forma.
Sonhemos enquanto esperamos
Foi em Charleston que Robert se tornou adulto. Pouco depois de lá chegar conheceu Hannah, uma escrava de família que viria a ser sua mulher e mãe dos seus filhos. A família para quem Hannah trabalhava aceitou que ela e o marido vivessem lá em casa, mas Robert cedo percebeu que não tinha feitio para “pertencer” a ninguém. Queria ser livre, ter uma casa sua e educar os filhos como bem entendesse.No entanto, e apesar de ser possível, a liberdade de um escravo na América tinha um preço: 800 dólares. Robert recebia pouco e nunca conseguiria somar o suficiente para se libertar a si, à mulher e aos filhos. Quanto mais os sonhos pareciam esfumar-se, mais crescia a frustração.
Cansado de trabalhar nos campos, Robert arranjou emprego como estivador no porto de Charleston. Pouco depois estava também a trabalhar a bordo de um navio, onde conquistou a confiança do capitão e aprendeu a navegar. Um dia, Robert confessou a Hannah que estava a delinear um plano de fuga: ela e os filhos deviam apenas aguardar pelo momento certo, e ele conduziria a família até à liberdade.
O mundo dá sinal
Enquanto o momento certo não chegava, Robert Smalls ficou a ver o mundo mudar - e que mudanças o escravo viu. Cedendo a pressões no sentido de construir uma sociedade igualitária, os Estados Unidos da América começaram, por todo o território, a aprovar leis anticlavagistas ou que garantissem alguns direitos básicos aos escravos negros. Estas mudanças, apesar de positivas, não foram consensuais e não tardou a que o próprio país se visse dividido.
Em 1861, tinha Robert 22 anos, sete estados americanos da região sul declararam, unilateralmente, independência face à união. O argumento era o de que a sociedade e a economia americanas assentavam no princípio da escravatura e assim deviam continuar, sob pena de a estrutura económico-social ruir. Estes estados estabeleceram um governo próprio e assumiram-se como Estados Confederados da América, uma aliança que chegou a contar com 13 estados-membros.Determinados a lutar pela União e pelos valores que ela representava, os estados do norte alinharam num conflito armado contra os estados confederados do sul. O conflito duraria apenas 4 anos, mas ficou para sempre marcado como o mais sangrento de toda a história dos Estados Unidos, somando 750 mil baixas. Para ter uma ideia, os EUA perderam mais soldados durante esta Guerra Civil do que na I e II Guerras Mundiais em conjunto.
Foi a 12 de maio de 1862, em pleno auge da Guerra Civil, que Robert Smalls viu abrir-se a janela de oportunidade por que tanto ansiava. Ele, escravo num estado do sul - e, portanto, membro dos Confederados -, via outros serem libertados sem poder seguir-lhes o exemplo. Era hora de mudar.
É hora
Foi naquela primaveril noite de maio que o USS Planter, um navio de guerra da Confederação, atracou no porto de Charleston. O plano? Passar a noite no porto, carregar com armamento e regressar em direção a norte, ao campo de batalha. Como escravo estivador, Robert Smalls foi convocado para integrar a equipa que iria carregar a embarcação - sempre sob o olhar atento do capitão C. J. Relyea e seus colegas.Quem anda na guerra, contudo, precisa de uns intervalos de vez em quando. Foi o que pensou Relyea, que resolveu aproveitar aquela folga para passar a noite na cidade. Quando a embarcação estava pronta para zarpar de manhã, o homem e a equipa abandonaram o navio e deixaram os escravos a cuidar dele. Robert não desperdiçou a deixa.
Reunido com os restantes escravos, Robert anunciou o seu plano de fuga. Ia usar o navio, aquele navio, para seguir em direção a norte, aos estados da União, onde não mais seria escravizado. Tão vítimas quanto ele, os outros escravos aceitaram o desafio - à exceção de dois, que, com medo da morte certa caso fossem capturados, desembarcaram e voltaram para casa.
Era 1h da madrugada quando o USS Planter soltou amarras. Assumindo o comando da embarcação, Robert pôs o chapéu do capitão Relyea na cabeça, vestiu o casaco de capitão e ordenou aos colegas que hasteassem a bandeira da Confederação. A escuridão da noite daria a restante ajuda ao disfarce. Pela frente tinham uma paragem numa doca ali perto para recolher a família Smalls e mais alguns escravos, e - o pior desafio de todos - quatro pontos de controlo da Confederação.

Sangue-frio, concentração e coragem
Circulando no deck do navio, Robert precisou de toda a coragem e concentração para passar nos postos de controlo da Confederação. Em cada um, os capitães deviam fazer um conjunto de sinais que eram um código para poderem passar. Felizmente, o escravo tinha acompanhado Relyea vezes suficientes para decorar a mímica de cada etapa.Já amanhecia quando o USS Planter chegou ao último posto de controlo: o maior de todos, o mais cheio de soldados e de armas, o mais enraivecido (tinha sido ali a origem da Guerra Civil). Os escravos que acompanhavam Robert cederam ao medo e pediram-lhe que não se aproximasse da barreira de navios, uma vez que o sol que nascia podia denunciar-lhes a pele escura. No entanto, Robert não tinha muitas alternativas: se, ao querer passar a barreira, evitasse aproximar-se dos soldados ia levantar suspeitas. Agarrou-se com força ao leme, encheu-se de coragem e seguiu em frente.
Chegado à barreira, Robert imitou todos os sinais que conhecia. Durante alguns eternos segundos, nenhuma resposta chegou do outro lado. O grupo sabia que, se fosse apanhado ali, não teria hipótese de fuga, e o sangue gelou-lhes nas veias… até que um navio da barreira devolveu uma mensagem com autorização para passar. O USS Planter seguiu para o lado de lá e estava, oficialmente, fora do território da Confederação com 17 ex-escravos a bordo.A liberdade, no entanto, ainda era mais à frente. Robert sabia que tinha passado as barreiras inimigas, mas também tinha consciência de que estava a invadir o território da União a bordo de um navio inimigo. Aqui, restava-lhes pouco mais do que esperar que o sol, já um pouco mais alto, os ajudasse a serem reconhecidos.
Quando um navio da União se deparou com o USS Planter, no entanto, o sol não ajudou grande coisa. De armas apontadas e prontas a disparar, os soldados só não lançaram fogo porque um deles, de visão mais aguçada, detetou um tecido branco a voar no vento mesmo ao lado da bandeira da Confederação. Em línguagem militar, aquele lençol que a mulher de Robert tinha atado ao mastro era sinal de rendição, pelo que os unionistas não podiam abater a tripulação. Teriam de se aproximar para os deter, e, então, já seria possível uma conversa.
Feliz, livre e herói
À União, Roberts entregou o USS Planter e todo o armamento com que fora carregado. Em troca, recebeu uma recompensa de 1500 dólares - o dinheiro de que precisava para se instalar com a família. Mais tarde, o ex-escravo reuniu-se com o próprio Abraham Lincoln e convenceu-o a permitir que negros se alistassem no exército, ganhando mais 5 mil homens para a força de combate. Nos anos seguintes, Robert Smalls participou ativamente na guerra contra a Confederação, sempre ao comando do “seu” USS Planter. Tornara-se o militar negro mais bem pago da Guerra Civil.Terminada a guerra - que a União venceu -, floresceram na constituição os primeiros direitos civis reconhecidos aos negros nos EUA. Neste processo, Robert também teve um contributo: é que com o fim do conflito o militar voltou com a família para a Carolina do Sul, onde integrou a Casa dos Representantes. Ao longo da carreira política, viria a ser um acérrimo defensor do país que o libertou e da comunidade negra, promovendo a paz e a justiça social.
Quando se reformou, Robert ainda teve tempo para um último gesto simbólico: comprou a casa onde nascera escravo e lá viveu até morrer, com pouco mais de 70 anos. Hoje, a casa é um museu dedicado ao herói e a concretização do lema que Smalls tomou, para sempre, como seu: “a minha raça não precisa de defesa especial. Tudo o que precisa é de uma chance igual na batalha da vida”.