Esta é a história de amor mais bonita da guerra

A história de Cyla e Simon dava um filme... e dos bons. Encoste-se na cadeira e aproveite as próximas linhas - vamos contar-lhe a história de amor mais impossível de sempre.

Esta é a história de amor mais bonita da guerra
Cyla e Simon são a prova de que o amor conquista o impossível

Corações jovens, amor maduro

Começamos por Cyla. Cyla Müller, judia, nasceu em 1908 numa pequena cidade chamada Buczacz, no coração do império Austro-Húngaro. Como menina de classe média que era, teve a oportunidade de prosseguir os estudos um pouco mais do que o habitual na época, e entrou para a escola secundária. Seria por esta altura que viria a conhecer Simon, o amor da sua vida.

Simon. De apelido Wiesenthal, o jovem judeu trazia uma infância atribulada: perdera o pai com apenas seis anos e a mãe, que entretanto se apaixonara de novo, decidira mudar-se para Dolina, onde passaria a viver com um novo marido. Com apenas 15 anos e os estudos ainda a meio, Simon entendia que mudar de cidade não era uma boa opção, pelo que pediu para ficar em Buczacz. Para não ficar sozinho, alugou um quarto à família Müller - e passou a conviver diariamente com a jovem Cyla.

Juntos em casa e juntos na escola, Simon e Cyla tornaram-se amigos inseparáveis. Mais tarde, a amizade transformou-se em amor e os dois casaram-se a 9 de setembro de 1936, mudando-se de armas e bagagens para Lvov, na atual Ucrânia. Cyla Müller era agora Cyla Wiesenthal.
 

O amor brilha, a sorte nem por isso

Tinham passado apenas 3 anos desde o casamento de Simon e Cyla quando, em 1939, o exército russo invadiu Lvov. As "limpezas" étnicas foram imediatas, e para os judeus estava reservada a deportação para a Sibéria. Os Wiesenthal conseguiram escapar subornando um oficial russo, mal sabendo que aquele era apenas o início de um azar maior.

Em 1941 o exército alemão invadiu a cidade e substituiu os russos. Lvov passava a ter um gueto para judeus e os Wiesenthal foram forçados a mudar-se para lá no verão. Semanas depois foram expulsos do gueto e enviados para o recém-criado campo de concentração de Janowska. Lá ficariam apenas umas semanas, até serem de novo transferidos, desta vez para um pequeno campo de trabalho onde foram forçados a trabalhar nas oficinas de reparação dos caminhos de ferro.

Apesar de terem ofícios diferentes - Cyla polia os metais e Simon pintava enormes cruzes suásticas nos comboios que os alemães roubavam aos russos -, os Wiesenthal viam-se todos os dias. Por ser um campo de trabalho, ali não havia SS, apenas os guardas dos caminhos de ferro. Foi graças a esse ambiente mais calmo que Simon teve tempo de reagir quando, um ano depois, soube da "Solução Final" de Hitler e da iminência de ele e a mulher serem enviados para um campo de extermínio.
 

Quando separar também é amar

Fruto da relativa liberdade dentro do campo de trabalho, a amizade com outros prisioneiros levou Simon a entrar em contacto com a Armja Krajowa (AK), uma 
organização clandestina que combatia o regime nazi. O plano era arriscado, mas era o único que Simon tinha: às escondidas, roubou do campo os mapas detalhados das linhas férreas e entregou-os à AK. Em troca recebeu documentos falsos que atestavam que Cyla era ariana e cristã, dando-lhe uma nova identidade: Irena Kowalska.

Foi em 1943 que, durante a noite, a AK ajudou Cyla a fugir do campo de trabalho e a levou para Lublin, onde ficou hospedada em casa de um arquiteto em troca do trabalho como ama das crianças da casa. A quem perguntasse, Cyla contava uma história insuspeita: era mulher de um oficial polaco que tinha sido preso pelos russos em 1939.

No entanto, a segurança de Cyla revelou-se precária. Poucos meses depois de chegar a Lublin, a Gestappo começou a apertar o controlo aos habitantes da cidade e a descobrir judeus escondidos. Cyla ficou com medo e fugiu, apanhando um comboio de volta para a cidade onde Simon tinha ficado no campo de trabalho.

Chegada à estação central da cidade, Cyla ficou escondida dois dias e três noites no quarto de banho das mulheres antes de conseguir arranjar forma de contactar o marido. Quando finalmente conseguiu, Simon voltou a pedir ajuda à AK e Cyla foi salva outra vez - agora sendo enviada para Varsóvia, onde lhe foi concedido abrigo num pequeno apartamento.
 

Há rumores que mudam tudo

Meses depois de Cyla se refugiar em Varsóvia, Simon tentou suicidar-se, cortando os pulsos. O homem sobreviveu, mas a notícia não chegou correta à AK e Cyla foi notificada de que estaria viúva. Desmotivada, facilitou e acabou apanhada pela SS. Foi enviada para Solingen, na Alemanha, onde a obrigaram a trabalhar numa fábrica de armamento. Dias depois, a rua onde tinha vivido, em Varsóvia, foi completamente destruída pelos alemães.

Entretanto transferido para o campo de concentração de Gross Rosen, Simon conheceu um prisioneiro que vivera precisamente nessa rua - aquela onde vivera Cyla e que fora destruída pelos alemães. O relato do prisioneiro era impressionante e trágico: não tinha ficado uma única alma viva naquela rua. "A rua Topiel é uma sepultura gigante", dissera-lhe o homem. Simon achava-se viúvo.
 

Que nem a morte nos separe

11 de abril de 1945. As tropas aliadas esmagavam o regime de Hitler e os campos de concentração começavam a ser libertados. Ajudada pelo exército britânico, Cyla abandonou Solingen e partiu em direção a casa. A 5 de maio foi a vez de Simon: as tropas americanas libertaram-no e ajudaram-no a partir para Linz, na Áustria, onde ficaria a trabalhar no gabinete norte-americano de crimes de guerra.

Foi no Gabinete onde trabalhava, e após lhe terem confirmado que Cyla estaria morta, que Simon encontrou os contactos de um amigo de infância, Dr. Biener. Biener estava a viver em Cracóvia, na Polónia, e conhecia Cyla desde pequena. Num último apelo ao amor, Simon pede a Biener que tente localizar o cadáver de Cyla nas imediações da rua de Varsóvia onde a mulher vivera, para que pudesse pelo menos conceder-lhe um funeral digno.
 

"A vida é como uma caixa de chocolates: nunca sabemos o que vamos tirar"

Enquanto a carta de Simon viajava para Cracóvia, Cyla apanhava o comboio na Checoslováquia em direção a Lvov - queria voltar para casa, a casa onde fora feliz. No entanto, o comboio parou em Cracóvia e atrasou-se algumas horas. Cyla resolveu sair e passear um pouco pela cidade.

Foi quando passeava pela zona história de Cracóvia que Cyla ouviu uma voz chamá-la pelo nome. Era um amigo de infância, do tempo de Buczacz, que lhe contou que Biener, o amigo que ela tanto estimava, vivia a poucas ruas de distância do lugar onde estavam. Cyla não perdeu a oportunidade: ia visitar o amigo!

Os momentos que se seguiram podiam ter sido escritos por um guionista de cinema. Biener estava em casa, tinha acabado de receber a carta de Simon a pedir-lhe que procurasse o cadáver de Cyla, quando a própria Cyla lhe tocou à campainha. No entanto, Cyla tinha a certeza de que era viúva, por isso não acreditou na veracidade daquela carta. Acabou por ficar hospedada ali até que o mistério fosse resolvido.

Cinco semanas depois, e com Cyla e Simon cientes de que estavam ambos vivos, mais um obstáculo se coloca: Cyla está na Polónia, controlada pelo regime soviético, e Simon está na Áustria, no setor controlado pelos americanos. Atravessar a fronteira, pelo menos legalmente, não seria possível para nenhum dos dois.
 

O fim nunca chega quando chamamos por ele...

Com contactos privilegiados, Simon arranja um documento que autoriza Cyla Wiesenthal a atravessar a fronteira e entrar na Áustria. Contratou um detetive chamado Felix Weissberg e entregou-lhe a missão final: trazer Cyla de novo para o seu abraço. 

O problema é que o detetive não era propriamente o James Bond da altura: ao chegar à fronteira com o setor russo, Weissberg teve um ataque de pânico e, com medo de ser preso, destruiu os documentos. Quando chegou a Cracóvia, não tinha nada que o ajudasse a encontrar Cyla - nem sequer um endereço.

Apanhado pelo desespero, Weissberg publicou um anúncio no Boletim do Comité Judaico de Cracóvia: "Pede-se a Cyla Wiesenthal que entre em contacto com Felix Weissberg, que a levará até ao marido em Linz". Por sorte, Cyla leu o anúncio... só que a promessa de atravessar a fronteira era tão atraente que mais duas mulheres responderam a Weissberg afirmando serem a verdadeira mulher de Simon.

Como não conhecia Cyla, Weissberg viu-se obrigado a escolher. Ouviu as três candidatas e escolheu uma para levar para a Áustria, usando novos documentos falsos que comprara no mercado negro.
 

...mas chega, eventualmente

De volta a Linz, Weissberg teve de contar a saga das três mulheres a um consternado Simon. Atrapalhado, apresenta-lhe a mulher que escolheu... e felizmente era Cyla Wiesenthal, a verdadeira. O casal estava, finalmente, reunido.

Nove meses depois, os Wisenthals passaram a três: nascia Paulinka, a primeira filha do apaixonado casal. Cyla era agora mãe a tempo inteiro, e Simon dedicava-se à procura de oficiais nazis para os levar a tribunal de guerra.

O final feliz chegara finalmente. Simon e Cyla foram casados 67 anos, até Cyla morrer em 2003, com 95 anos. Simon viria a falecer dois anos depois, com 97. A história de amor, no entanto, não vai acabar. Afinal, há mesmo amores que nunca morrem.

 

Comente esta notícia