Gaiola para dois: as casas-cubículo que fizeram do mundo um lugar pior

São pequenas, acanhadas e têm tanta falta de janelas como de ar. Em cidades que se dizem grandes e evoluídas, há quem viva em gaiolas. Conheça as histórias.

Gaiola para dois: as casas-cubículo que fizeram do mundo um lugar pior
Ter espaço para todos é o maior desafio que a China enfrenta

Imagem: Daniel Berehulak


O muito que há é para poucos

Apresenta-se como uma das cidades mais evoluídas da China, carregada de arranha-céus brilhantes que enfeitam as fotografias à noite, mas Hong Kong esconde atrás de paredes milhares de vidas miseráveis que acontecem, todos os dias, em cubículos e gaiolas pouco maiores do que a casota de um cão.

O drama é fácil de perceber logo que começamos a fazer algumas contas. Hong Kong é grande em tamanho como é em população. No entanto, os chineses não são tão comunistas que aceitem dedicar os 1.000Km2 de terreno por inteiro à população, pelo que apenas 7% do espaço é utilizado para construção residencial. Quer isto dizer que os 7 milhões de habitantes da cidade têm de se espremer, seja de que forma for, em apenas 70Km2. Só para ter uma ideia, o rácio é de 100 pessoas por cada metro quadrado.

Mesmo construindo em altura, não é fácil abrigar tanta gente em tão pouco espaço. Então se considerarmos as diferenças de poder económico entre residentes, que assumem distâncias alarmantes, mais difícil se torna - e, já se sabe, a corda rebenta sempre do lado mais fraco.


Mais vale uma gaiola do que...

Os dez minutos que Cheung Chiu Yuen caminha todos os dias para ir buscar a filha Elaine à escola bastam para que Hong Kong lhe mostre descaradamente que a vida não é igual (nem justa) para todos. De mão dada, o homem de 62 anos e a filha atravessam a sombra dos arranha-céus até casa: um pequeno cubículo num andar de um prédio onde os apartamentos há muito que deixaram de o ser.

A casa-cubículo de Cheung e Elaine não tem gaiolas, mas nem precisa - pouco maior é do que uma. Nos 13 metros quadrados de que dispõem, pai e filha dormem, cozinham, fazem os TPC, brincam, riem e sonham com dias melhores. Paredes não há e o quarto de banho fica lá fora, porque é partilhado com vizinhos dos outros cubículos.

Cheung é pai solteiro e está neste momento desempregado, por isso pouco se queixa. Os 238 euros que paga de renda até nem são muito, diz, considerando que um cubículo semelhante ao fundo do corredor está a ser alugado pelo dobro do dinheiro. Além disso, Cheung é já um cliente antigo das populares casas-cubículo e sabe bem comparar o que tem agora com o que tinha antes. E nessa comparação, garante, o que tem agora é um verdadeiro palácio: é o cubículo maior em que já viveu nos últimos 30 anos.

Encostada à pequena janela que lhe mostra o céu, Elaine sonha com o dia em que terá a sua casa de sonho. E como é essa casa de sonho? "Tem um quarto para o meu pai e um quarto para mim. Dois quartos!". De olhos brilhantes, a pequena ainda tem a esperança no futuro tão típica nas crianças. "Quando o pai tiver dinheiro", diz, terão uma casa assim.

O que Elaine não sabe é que ela e o pai engrossam a lista dos que as assistentes sociais apelidam de "N-Nadas": cidadãos que, não tendo condições financeiras para sobreviver, também não são elegíveis para concurso a uma casa pública porque têm propriedades no seu nome. Em alguns casos, esta inflexível regra coloca os cidadãos num beco sem saída: Chung confirma que tem, sim, uma casa de família registada em seu nome, herdada dos pais, mas explica que a casa fica fora da cidade e que a pequena Elaine teria de andar, todos os dias, 1h30 de autocarro para chegar à escola e novamente para voltar para casa. Na idade dela, percorrer tal distância sozinha numa cidade como Hong Kong é absolutamente impensável, por isso Cheung não tem outra alternativa além de ficar a viver no cubículo.
 

A infindável espera pelo mundo lá fora

A barba de Yeung Suen esconde-lhe os 54 anos atrás de uma aparência de idoso, agravada pela magreza impossível de disfarçar. O chinês, habitante de um dos bairros de Hong Kong com maior concentração de gaiolas e casas-cubículo, abre a porta do pouco que tem mas não pode convidar ninguém para entrar - é que ali, nos seus 3 metros quadrados, só cabe a cama e ele próprio. Yeung chama-lhe casa porque é o único espaço que tem, pelo menos enquanto espera que o governo chinês lhe atribua uma casa pública onde possa finalmente esticar as pernas.



Pode dizer-se que a velhice aparente de Yeung também é fruto da casa onde vive. Ali não tem espaço para se espreguiçar, menos ainda para cozinhar. Tem de comer o que traz da rua, às vezes mais, às vezes menos, que o dinheiro não dá para tudo. Os banhos são poucos e rápidos, porque o lavatório, a sanita e o chuveiro são partilhados com os vizinhos. Os objetos de uma vida, que não são muitos, empilha-os debaixo da cama ou nos cantos do cubículo.

De noite as pulgas não o deixam dormir bem, e de dia é o calor que o incomoda - é que naquela casa sem janelas a temperatura é, geralmente, 10 graus mais quente do que a que se faz sentir na rua. Nos dias de verão, os 30 graus da rua transformam-se em 40 graus dentro de casa e Yeung é obrigado a sair e a passar o dia no jardim ali perto, onde se entretém a sonhar com o dia em que terá uma casa "perfeita": um quarto, uma cozinha e um quarto de banho que não tivesse de partilhar com os vizinhos já o fariam imensamente feliz.

O cubículo de Yeung é um dos 13 habitáculos em que um proprietário dividiu um antigo T3 de apenas 65 metros quadrados. Ali, tudo é escasso: não há cozinha, o WC é partilhado por todos e a única janela da casa está num espaço comum. É estreita, mas tem de chegar para todos se refrescarem, à vez, nos dias mais quentes. Ainda assim, Yeung nem é o que está pior. Pelo menos tem um cubículo... há quem viva numa gaiola, como é o caso do vizinho que ocupa a gaiola de grades presa ao teto no fim do corredor. Ali, o velho senhor só tem mesmo espaço para o colchão onde dorme - nos dois metros quadrados que aluga, não pode sequer ficar de pé.
 

Os pobres-ricos

O bairro de Yeung é o que tem as gaiolas e as casas-cubículo mais baratas de Hong Kong. No entanto, há ironias que parecem brincadeira: pelos seus três metros quadrados, Yeung paga mensalmente 160 euros, o que dá 53 euros por metro quadrado - um preço mais elevado do que em muitos condomínios de luxo no centro da cidade. Mais revoltante se torna ainda quando considerarmos que, além da renda, os proprietários dos apartamentos com cubículos cobram uma taxa extra pela eletricidade, água e outros serviços básicos.

Foi essa taxa extra, entre outras coisas, que levou Yu e tantos outros chineses a começarem a sair de Hong Kong. O jovem, trabalhador das obras, vinha do bairro mais cheio da metrópole, onde era vizinho de imigrantes, famílias pobres que saíam do campo e ex-condenados. Por não ter dinheiro para pagar a renda dentro da cidade, que subia todos os meses, Yu procurou abrigo na zona industrial. O problema é que a ideia não foi propriamente inovadora - em poucos meses, milhares de chineses saíram das gaiolas de Hong Kong para a zona industrial, e os proprietários que lhes alugavam as gaiolas foram os mesmos que, percebendo a tendência, compraram grandes armazéns e fábricas e os dividiram em dezenas de cubículos para arrendar.

Yu acabou a viver numa fábrica onde, num único andar, existem 32 cubículos. Mais uma vez, o espaço é exíguo, não tem janela e o quarto de banho é partilhado pelo andar inteiro. Cozinhar, além de impossível, é proibido pelas regras impostas pelo senhorio - é que as divisórias entre cubículos são todas em madeira e qualquer chama descontrolada pode originar um incêndio fatal para todos. São as mesmas placas de madeira que impedem Yu de dormir normalmente - é que a falta de isolamento faz com que o som passe entre paredes e todos se ouçam a toda a hora. Sozinho (a mulher e a filha ficaram na aldeia), Yu concebeu uma estratégia para adormecer que, podendo ser eficaz, é também, no mínimo, triste: quando chega do trabalho, bebe duas garrafas de vinho "até ficar um pouco bêbado" e, embalado pela embriaguez, deita-se na cama. Com um pouco de sorte consegue adormecer rápido e só volta a acordar no dia seguinte, à hora de ir trabalhar outra vez.

Ainda assim, Yu não acha que está muito mal. Pelos seus três metros quadrados paga mensalmente 150 euros, mas, como não teve de entregar depósito à entrada e não paga mais para ter água e luz, o negócio até compensa.
 

(il)egais?

Apesar de serem situações chocantes, a verdade é que não existe nenhuma lei na China que proíba os cidadãos de dividir os apartamentos em gaiolas ou cubículos para alugar. Yeung Pui Yan, representante de uma associação que luta pela reorganização da comunidade em Hong Kong, conta que foi preciso haver um incêndio de grandes proporções numa casa sobrelotada - e com vários mortos - para a sociedade começar a olhar para a classe pobre e pressionar as autoridades a fazer alguma coisa. O resultado, admite, não foi nada de extraordinário: as gaiolas continuaram a ser legais e as autoridades apenas proíbem o arrendamento de espaços que apresentem risco de incêndio ou derrocada. Ora, se não são feitas fiscalizações regulares, como sabem que há risco de incêndio? Não sabem, explica, e tudo continua como dantes.

No entanto, a jovem assume que a simples proibição das gaiolas e casas-cubículo não vai resolver o problema social que a China enfrenta. "O que é que podem fazer?", questiona, "Mandar os proprietários desfazer os cubículos? Perseguir os inquilinos? Para onde é que eles vão? Vão acabar por sair de um cubículo para outro cubículo", explica. A solução verdadeira, garante, está do lado do governo, que tem de construir mais casas públicas para alojar estas pessoas.



Mas será que o governo quer mesmo fazê-lo? Quando foi eleito, o primeiro ministro Leung Chun-Ying prometeu aumentar o ritmo de construção de casas públicas de 15 mil para 20 mil por ano. No entanto, Ernest Chui, professor associado da Universidade de Hong Kong, não vai na conversa e desconstrói os factos: a lista de espera por casa pública está, neste momento, nos 210 mil candidatos. Se o governo construir mesmo 20 mil casas por ano (e estamos a assumir que não só este número é cumprido como também que a lista não aumenta mais), vão ser precisos 10 anos para "limpar" a lista. Pior: Chun-Ying criou o projeto de construção com data de início para 2018, ou seja, depois de terminar o seu mandato. Quem garante que o sucessor vai querer manter o plano?

Mais ridículo é ainda, para Ernest, que o governo não consiga assumir a legalidade nem a ilegalidade das casas-cubículo e das gaiolas. "É suposto serem ilegais mas, ao mesmo tempo, estas pessoas têm de usar água, eletricidade, telefone, gás e até correios. O governo dá-lhes acesso aos serviços públicos, mas não significa que os aceite como legais", explica. Além disso, há ainda um problema de falta de honestidade dentro dos próprios órgãos governamentais: "Hong Kong cresceu muito apoiada na especulação imobiliária, e se o governo começar a construir muitas casas públicas é provável que muita gente evite comprar os apartamentos aos construtores. Como é o próprio governo que vende os terrenos aos construtores, não interessa que o negócio deles sofra uma quebra", conta.
 

Pássaro preso não sabe voar

Num momento em que ninguém parece querer fazer grande coisa pela população mais miserável de Hong Kong, resta a pessoas como Chung ou Yeung esperar. Esperar por ajuda, esperar por dias melhores, esperar por uma oportunidade em que a vida lhes sorria e eles possam sorrir de volta.

O drama das gaiolas e das casas-cubículo agrava-se a cada dia que passa, mas o mundo evoluído não tem tempo para parar e pensar no assunto. Ficam, assim, presos na gaiola os sonhos, cada vez mais amarfanhados,  de quem só queria um lar. Quem sabe, com o tempo, já não saibam mais voar e, em consequência, deixem de pedir para sair.

 

Comente esta notícia