"Gostava de ter sido homem, porque os homens podem fazer tudo"

Numa entrevista, Simone de Oliveira falou da sua vida pessoal e revelou que, com 19 anos, abandonou o marido: "Bateu-me por causa de um tostão na conta da mercearia."

Imagem: RTP

Simone de Oliveira foi a convidada desta semana do ciclo de entrevistas públicas “30 Portugueses, Um País”, uma iniciativa do grupo hoteleiro PortoBay, que decorreu em Lisboa.

A cantora e atriz, que já foi distinguida por dois Presidentes da República, falou do seu percurso de vida e, também, da sua relação com Amália Rodrigues.

“Com a Amália era tu cá tu lá. Mas umas vezes tratávamo-nos por ‘tu’ e outras vezes por ‘você’, referiu, acrescentando, “nunca me deixou cantar em francês em Paris – quem canta em francês sou eu, dizia ela”.

Recordou a este propósito que, no ano passado, a vida colocou-a no palco do Olympia a cantar quatro fados da Amália em francês: “Estive no camarim que seria dela se estivesse viva, cantei em francês, acabei com o Olympia a bater palmas em pé e a minha filha a assistir.”

“Gostava de ter sido homem, porque os homens podem fazer tudo”

“A Simone é uma diva que está ao lado das pessoas de carne e osso. A Amália era uma diva que pairava em cima das pessoas de carne e osso”, defendeu Luís Osório, o moderador e um dos mentores desta iniciativa. Simone reagiu de imediato à afirmação, dizendo: “Não sou ícone, chamo-me Simone e canto cantigas”.

À pergunta – como se define? -, Simone respondeu: “Gostava de ter sido homem porque os homens podem fazer tudo”, disse, contando que levou muito tempo a ter respeito pelo sexo oposto. Com 19 anos saiu de casa poucos meses depois de casar.

“Bateu-me por causa de um tostão na conta da mercearia.” Lembra-se muito bem desse jantar de cozido à portuguesa, onde também estava a sua irmã de 15 anos. “Ele próprio tinha uma cara quadrada, era todo quadrado, mas eu aos 16 anos não dei por isso.”

“Gostava de ter sido homem, porque os homens podem fazer tudo”

“A minha mãe é que tinha razão quando se opôs àquele namoro”, reconheceu mais à frente na conversa quando falou das lições de vida que gostaria de ter recebido dos seus antepassados e as que conta passar à próxima geração. O tempo mostrou-lhe que a recomendação da sua mãe estava certa. Mas Simone não é apologista de conselhos. Nem acredita que sirvam para evitar coisa alguma. “Não deixarei nenhum conselho [aos netos]. As pessoas têm de fazer escolhas e a vida tem de lhes dar conselhos.”

Com 80 anos, diz que não escolheu a vida que teve e que foi a vida que a escolheu a ela. Defende que, em parte, a vida acontece sozinha, mas que podemos ajudar com uns empurrõezinhos. “Quando me fecham as portas invento uma janela qualquer nem que seja à cabeçada. E olhe que já inventei algumas e algumas cabeçadas doeram muito”, confessou.

 

 

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