Mulheres do rei, rainhas da guerra

Se sempre lhe ensinaram que os homens são mais fortes que as mulheres, é hora de lhe ensinarmos algo novo. Conheça as guerreiras de Daomé: o exército de mulheres mais temido da África Ocidental.

Mulheres do rei, rainhas da guerra
Há mulheres que até os soldados temem

Sabe aquela expressão que diz que as mulheres são o sexo fraco? Vamos começar por pô-la de parte. É que há um país na África Ocidental, antigo reino de Daomé e atual Benim, onde o pelotão mais forte do exército era composto por... mulheres. E garantimos-lhe: com elas ninguém se metia.


Na selva vale tudo

Vivia África o ano de 1625. Daomé, na costa ocidental, era habitado por várias tribos e governado por um rei - Dako - líder da tribo "Fon". A grande tribo Fon, apesar de retalhada na convivência com outras tribos, mantinha-se unida pela necessidade e astuta na estratégia. Localizado mesmo no seio daquela a que os portugueses chamaram "Baía dos Escravos", o reino de Daomé só tinha, na altura, duas opções: ou ajudava a capturar escravos para vender ou era, ele próprio, escravizado.

Guiados por Dako, os Fon escolheram fornecer escravos aos portugueses. Assumindo um estilo de vida brutal e altamente militarizado, pagaram pela liberdade o preço de caçarem os próprios vizinhos. Com o negócio, a economia do reino cresceu - se é que economia se podia chamar à frágil e rudimentar estrutura do reino - e Dako rapidamente se tornou um rei famoso em toda a África Ocidental.

Claro que, está bom de prever, Dako tinha tantos amigos entre os portugueses como inimigos entre os conterrâneos. Sanguinário e impiedoso, o rei era polémico não só pelas agressivas perseguições e raptos mas também pelas alianças que mantinha com os traficantes de escravos. Era, por isso, essencial manter-se protegido, e para isso precisava de uma guarda exclusiva para proteger o palácio real. É aqui que entram as famosas guerreiras Gbeto - embora as teorias sobre o nascimento deste pelotão não sejam todas coerentes.


Mulheres de sangue valente

Vamos começar pela lenda: estávamos algures entre 1818 e 1858, e Daomé era reinado pelo rei Gezo. Perante o olhar petrificado de muitos homens - alguns deles estrangeiros -, um grupo de mulheres guerreiras atacou uma manada de elefantes e, em poucos minutos, matou quatro sem sofrer grandes baixas. Verdadeiramente admirado, o rei chegou-se às guerreiras para lhes elogiar a coragem e a habilidade, ao que a líder do grupo respondeu prontamente: "uma caça ao homem sabia-nos ainda melhor". Intimidado e fascinado ao mesmo tempo, o rei Gezo terá então criado um pelotão especial no exército de Daomé, exclusivo para mulheres guerreiras e que se tornou famoso pela bravura.

A história que vem no único livro onde as guerreiras Gbeto são referidas, contudo, não é tão épica. De acordo com Stanley Alpern, do relato acima descrito não existem mais provas para além das lendas que circulam entre os habitantes tribais e do relato de um médico francês chamado Repin, que terá chegado a Daomé num navio da armada e terá assistido ao ataque à manada de elefantes. Assim, Alpern prefere optar pela teoria mais razoável: a de que em 1720, bem antes do rei Gezo, as amazonas de Daomé já eram as guardiãs do palácio real.

E porquê guardiãs do palácio? Porque, de acordo com as regras locais da tribo Fon, só mulheres podiam entrar no palácio do rei depois de anoitecer (à exceção dele próprio, claro). Como proteger, então, um rei com muitos inimigos se os soldados do exército não podem entrar na casa onde ele vive depois de o sol se por? Criando um corpo especial só de mulheres.


Todas as mulheres são de um homem só

Ao contrário do que dita a imaginação popular, as guerreiras Gbeto (ou Mino) eram tudo menos sexualmente vorazes. Na verdade, muitas não chegavam sequer a ter relações sexuais uma única vez... mas vamos por partes.

Para começar, todas as mulheres que quisessem entrar para o exército de Gbeto tinham de ser virgens. Esta condição tinha uma justificação: é que todas elas eram casadas com o rei e o rei não aceitava mulheres que já não fossem virgens. No entanto, as Gbeto pertenciam às "mulheres de terceira classe" do rei: consideradas demasiado feias para dividir o leito com o marido, mas obrigadas a uma fidelidade incondicional como todas as outras. Assim, era comum as Gbeto ficarem virgens até morrer.

O rei, no entanto, era incapaz de punir a infidelidade das Gbeto. Podiam, se o entendessem, ter relações com outros homens sem que daí viesse qualquer castigo. O que não podiam mesmo era ter filhos ou sequer pensar em constituir família. Enquanto fossem Gbeto, teriam de se dedicar totalmente à causa militar e seguir um único lema: "Gezo fez-nos renascer, somos suas esposas, suas filhas, seus soldados. A guerra é o nosso passatempo e a comida que nos alimenta".
 

Menos que valem mais

Se Daomé se expandiu entre os séculos XVI e XVIII, bem o pode agradecer às valentes Gbeto. Cada vez mais famosas, as mulheres guerreiras conheceram, no tempo do rei Gezo, um crescimento admirável - há registos que apontam de um crescimento de apenas 600 elementos para mais de 5 mil. Eram, ainda assim, uma parte pequena dentro do exército total de Daomé (composto por mais de 12 mil homens), mas isso não as impedia de serem respeitadas e temidas como mais nenhum grupo naquela região africana.

Durante décadas, as Gbeto patrulhavam cidades, controlavam portos marítimos e recuperavam o território que as outras tribos iam tentando conquistar aos Fon. Comparadas com as tribos vizinhas, as Gbeto eram muito poucas, mas a valentia e, sobretudo, a impiedade com que cortavam a cabeça aos inimigos compensava a inferioridade numérica.

Muitas vezes, a bravura das Gbeto resvalava para a crueldade. Quem com elas se metesse, sabia o seu destino: depois de chegarem ao inimigo, as Gbeto não faziam prisioneiros. A técnica era sempre a mesma: com a espada (que, garantiam as testemunhas, conseguia cortar um corpo humano inteiro num só golpe) cortavam a cabeça dos soldados inimigos e levavam-na, na mão, até ao centro da cidade, onde a expunham durante alguns dias. Outras traziam a cabeça decapitada na ponta da comprida lança que usavam na guerra. Não admira, por isso, que as Gbeto fossem consideradas verdadeiros homens e desprovidas de qualquer sentimento ou fragilidade feminina.

Se, com espadas e lanças, as Gbeto eram agressivas, imagine quando puseram as mãos em armas de fogo. Foi o que aconteceu quando, em troca de grupos de escravos capturados, os dinamarqueses começaram a oferecer às Gbeto espingardas Winchester.


São rainhas (da guerra)

Na época de maior esplendor, as guerreiras Gbeto eram verdadeiras rainhas na forma de viver. Se, por um lado, os treinos militares eram muito exigentes - trepavam árvores cobertas com espinhos para aprenderem a resistir à dor, passavam até 9 dias sozinhas no mato para aprenderem a sobreviver e lutavam umas com as outras para aprimorar as habilidades de luta -, por outro lado o rei concedia-lhes regalias que as tornavam tão invejáveis quanto verdadeiras deusas.

Cada guerreira tinha direito a álcool e tabaco na quantidade que desejasse. Escravos, eram 50 para cada mulher, sendo que uma das escravas caminhava sempre na sua frente, na rua. A função desta escrava era tocar um sino ao longo do caminho, alertando os habitantes para a passagem da guerreira. Os homens sabiam, assim, que deviam afastar-se e olhar noutra direção - é que o simples ato de tocar numa Gbeto dava direito a pena de morte.


Resistir até ao fim

O poderio das Gbeto durou vários séculos - tanto que fez delas o grupo militar feminino mais famoso de sempre -, mas haveria de ter um fim. No entanto, desengane-se: estas mulheres não desistiam assim com facilidade.

Quando, no século XIX, as potências europeias começaram a querer dividir o continente africano em colónias, França ficou de olho em Daomé. A Baía dos Escravos continuava a ter grande importância para o comércio mundial, e dominando o porto marítimo dominariam toda a África Ocidental. Aos poucos, o exército francês foi conquistando o território de Daomé controlado por outras tribos, mas não tardou a dar de caras com a tribo Fon e as suas poderosas guerreiras.

A primeira reação dos franceses quando encararam as Gbeto foi de surpresa: nunca, até ali, tinham combatido contra mulheres, não estavam habituados nem preparados para matar jovens e raparigas. Ao mesmo tempo, aquele grupo de guerreiras seminuas, com os seios à mostra, perturbava-os: não eram raras as vezes em que, chegando perto de uma guerreira, os soldados franceses não tinham coragem de a matar.

As Gbeto, no entanto, pouco se importavam com a idade, o sexo ou o aspeto do inimigo. Se era adversário, era para matar. Assim, e tirando proveito do efeito surpresa e da inação dos soldados, rodavam as espadas no ar e decapitavam-nos sem dó nem piedade antes mesmo que eles percebessem o que estava a acontecer. Numa primeira fase, a vitória parecia piscar o olho a Daomé.

O efeito surpresa, contudo, não dura para sempre. França foi ágil na reação e em 1890 enviou para Daomé um grande número de tropas da Legião Estrangeira francesa, todos devidamente armados. Mesmo com algumas espingardas, as Gbeto não tinham hipótese de vencer um exército europeu armado até aos dentes. No entanto, não desistiram e lutaram, literalmente, até ao fim. Nos registos do exército francês, os números arrepiam: das 1500 mulheres em campo, apenas 50 sobreviveram. O exército de Daomé tinha sido, finalmente, derrotado.
 

O descanso das guerreiras

Subjugado ao domínio francês, Daomé tornou-se, com o tempo, uma colónia como todas as outras. As guerreiras Gbeto ficaram reduzidas às lendas tribais e, sem elas, o exército desmembrado não teve força nem motivação para lutar mais. As Gbeto sobreviventes, poucas em quantidade e fracas na força para aguentar os traumas de guerra, casaram, saíram de Daomé ou foram viver sozinhas para lugares isolados no mato. Muitas, quase todas, envelheceram loucas pelas memórias de uma vida sanguinária.

A última Gbeto, Nawl, morreu em 1979. Na memória fica apenas o passado, muitas vezes recordado em cerimónias oficiais do país. Hoje, as mulheres do Benim não são guerreiras, mas ainda celebram a força feminina em danças onde manobram armas. Os registos são poucos e antigos, mas ainda os há - trouxemos-lhe um, para que nunca esqueça que o corpo não tem de ser uma limitação e que a coragem não tem género.


 

 

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