O médico e a Bruxa, do bisturi para a fogueira

Quem pode mais: a Fé ou a Ciência? Esta é a história de uma bruxa e do médico que a queria salvar da fogueira.

O médico e a Bruxa, do bisturi para a fogueira
Há batalhas difíceis de travar.

O homem de quem lhe vamos falar, Andrés Laguna, não era um homem qualquer. Era médico, apaixonado pela Ciência e um nome com um lugar tão marcado na História que até Cervantes lhe dedicou umas linhas na obra D. Quixote. 

No entanto, e além de todos os feitos científicos e de todas as teorias por que se tornou famoso - foi dos primeiros homens a falar no conceito de uma Europa unida -, Andrés Laguna foi também protagonista de uma aventura peculiar: tentou salvar uma bruxa da fogueira da Inquisição.
 

O médico sem direito

Segóvia, Espanha, 1499. O país, como a Europa, estava entregue ao poder da Igreja e ao medo provocado pela Inquisição. Judeus, bruxas, ciganos... todos aqueles que o clero - ou qualquer pessoa - achasse diferentes ou ameaçadores tinham um cruel destino na fogueira. Andrés Laguna, nascido no seio de uma família judia, não seria um caso diferente de tantos outros - não fosse a sabedoria dos pais que publicamente se assumiram convertidos ao catolicismo.

Se os pais de Andrés de facto passaram a acreditar em Cristo ou se a conversão era apenas uma fuga desesperada à morte, não sabemos. Nem nós nem a Igreja, que, por via das dúvidas, não dava aos judeus convertidos os mesmos direitos e benesses que dava aos cristãos tradicionais. Por este motivo, Andrés não foi autorizado a seguir o sonho de ser médico. Para a Igreja, o jovem não tinha o "sangue limpo" que se exigia a quem quisesse estudar Medicina. Determinado, o jovem não teve outra solução: mudou-se para Paris e lá conseguiu frequentar a universidade.
 

Um homem de Ciência

Desde o primeiro dia que Andrés Laguna se mostrou um verdadeiro homem de Ciência. Fã do método empírico, só acreditava naquilo que conseguia provar. Ao contrário do que era habitual para a época, Andrés não era um homem de crenças ou de fé, não acreditava em bruxarias e até descontruía muitos "atos mágicos" encontrando para eles uma explicação científica. Esta postura valeu-lhe, claro, muitas conquistas na Medicina: Andrés foi responsável pelo fim de algumas práticas médicas absurdas e pela melhoria de muitos tratamentos.

Sempre com o livro "Dioscórides" debaixo do braço - um manual de Medicina escrito por um médico grego do século I chamado Pedacio Dioscórides -, Andrés rapidamente ganhou fama. Durante alguns anos viveu em viagem pela Europa, servindo como médico particular de figuras tão importantes como o Papa e vários reis.

Foi durante esse período que, instalado em Metz (atual França), Andrés soube de um Auto de Fé que estava a ser preparado pela Inquisição e no qual seria queimada uma mulher acusada de bruxaria.
 

O médico e a bruxa

Estávamos, por esta altura, algures entre 1540 e 1545 - o período em que Andrés Laguna viveu em Metz. Famoso pela competência e sabedoria, Andrés tinha sido contratado para ser o médico da cidade, responsável pela saúde da população e, sobretudo, das pessoas mais importantes da sociedade local. Entre os seus pacientes estava o Duque de Lorena, a personalidade mais importante de todas.

Foi precisamente o Duque de Lorena que deu origem a um dos maiores desafios de Andrés. Sem que ninguém conseguisse perceber as causas, o duque adoeceu e ficou enfermo durante várias semanas sem que médico nenhum - nem Andrés Laguna - o conseguisse ajudar. Para uma população pouco informada e crente, se o duque estava doente e os médicos não sabiam dizer o que era então a resposta só podia ser uma: bruxaria.

Naquele tempo, a partir do momento em que nascia a suspeita de bruxaria, começava também a verdadeira "caça à bruxa" - e desenganem-se os otimistas, porque nesta caça qualquer presa servia. Bastavam um dedo apontado, um sussurro de um vizinho ou umas ervas diferentes no jardim para fazer uma bruxa. Foi o que aconteceu.

Acusado de querer acabar com a vida do duque, um casal de anciãos da cidade foi detido. Ele, atirado para a cadeia, era acusado de cumplicidade; ela, condenada à fogueira, era acusada de bruxaria e práticas mágicas. Na base das acusações estavam alegados acessos de loucura em que ambos confessavam o crime e diziam ter feito várias maldades ao Duque de Lorena.
 

A corrida entre a Ciência e a Fé

Homem pouco dado a crenças e a magias, Andrés Laguna não acreditou nos relatos dos condenados e fez-se valer do estatuto de médico oficial do Duque de Lorena para garantir, publicamente, que a doença do nobre nada tinha de mágico, era apenas um problema de saúde difícil de tratar. No entanto, e mesmo que a Igreja e a população acreditassem nesta teoria, isso não ilibava o casal que estava sob custódia. Era preciso provar que os anciãos não constituíam uma ameaça, por isso Laguna fez o que sabia fazer melhor: investigou empiricamente.

O primeiro passo era visitar a casa dos dois acusados. Uma vez lá, Andrés procurou tudo o que pudesse ser associado a rituais de bruxaria. Nesta pesquisa, o médico encontrou um frasco com um unguento verde, de cheiro muito forte. Era, sem dúvida, um produto suspeito, por isso trouxe-o para o consultório e começou a experimentar.

Conhecedor de botânica, o médico analisou o conteúdo do frasco e determinou as plantas de que era feito o unguento: cicuta, erva-moura, meimendro e mandrágora. Ora, os efeitos de todas estas plantas não eram desconhecidos para Andrés, que rapidamente percebeu que a pasta não seria mortal. Para o provar, experimentou-a numa paciente sua.

A mulher em quem Andrés experimentou o unguento queixava-se de insónias. Passava noites e dias seguidos sem dormir, sentia-se cansada e desesperada. O médico passou-lhe o frasco e pediu-lhe que se besuntasse com aquela pasta verde. O resultado? 36 horas seguidas de sono profundo, durante o qual a mulher garantiu ter tido sonhos completamente disparatos e até alucinações. O unguento até podia ser alucinogénico, mas estava provado que não era fatal.
 

Queimem-se as bruxas

Munido de todos os registos, relatórios e provas, Andrés Laguna pediu para participar no Auto de Fé, depondo em defesa dos acusados. Perante um público mais dado à Bíblia do que à Ciência, o médico mostrou que as ervas e unguentos encontrados na casa dos suspeitos não eram prejudiciais à saúde e não podiam ter sido responsáveis pela doença do duque. Além disso, por serem alucinogénicos, explicavam as confissões dramáticas da suposta bruxa: a mulher nunca tinha feito mal ao duque, os relatos que fazia eram alucinações que sofria quando estava sob o efeito da pasta com que se besuntava para dormir melhor.

A Inquisição, contudo, não deu valor à palavra de um médico e recusou sequer considerar os relatórios que Andrés levava. As acusações mantiveram-se e a bruxa, sem salvação, foi mesmo queimada na fogueira. O marido, acusado de cumplicidade, morreu na cadeia, e pouco tempo depois também o Duque de Lorena acabou por sucumbir à misteriosa doença. Na mente do povo, o duque tinha morrido por bruxaria e a bruxa tinha sido punida. Assunto encerrado.

Desiludido, Andrés Laguna voltou a partir de Metz e a instalar-se temporariamente em várias cortes europeias para tratar reis e nobres. No entanto, a forma como o médico via o mundo mudara radicalmente e o homem, que outrora fora apenas um cientista fervoroso, começava agora a ter uma visão política da sociedade.

Foi por esta altura que Andrés Laguna, um homem de Ciência, fez nascer uma nova perspetiva política sobre a Europa. Para o judeu que não conseguiu salvar a bruxa, uma Europa que tem os olhos postos nas diferenças culturais e religiosas dos seus povos é uma Europa dividida e insustentável. Para o médico, a tolerância era a chave da evolução, e tolerância era precisamente o que faltava àquela Europa dominada pelas Inquisições, pela religião e pelos Autos de Fé. Era preciso sonhar - e o médico sonhou. Sonhou e escreveu: o seu livro "Discurso da Europa. A que a si mesma se atormenta" foi das primeiras obras a idealizar uma Europa unida e sem guerras internas.

A história do médico e da bruxa não teve um final feliz, mas pode ter sido o início e algo maior. O que acha que diria Andrés se vivesse agora, numa Europa divida entre o sentimento solidário para com aqueles que fogem à guerra e o sentimento de ameaça de quem não sabe o que por aí vem?

 

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