Se um dia quiser fazer uma coleção de histórias macabras, fique já a saber que Hans Schmidt não pode mesmo ficar de fora da lista de personagens. Este padre, amado por todos como qualquer servo de Deus, ficou famoso há mais de um século por esconder, disfarçado pela batina, um espírito maquiavélico e cruel.
Foram anos de crimes, torturas e violações, sempre encoberto pela aura de santidade que o crucifixo lhe trazia. Até ao dia em que, transtornado pela malvadez, se deixou apanhar - e em que o mundo assistiu, chocado, à primeira - e única - condenação de um padre à pena de morte.
"Até a criança se dará a conhecer pelas suas ações”
Foi em 1881 que Aschaffenburg, uma pequena cidade alemã, viu nascer Hans Johannes Schmidt. No seio de uma família católica, a criança cedo mostrou uma anormal apetência para a vida religiosa: como brincadeira, Hans montava altares numa das divisões da casa, e, munido de cálices, livros e roupas compridas, celebrava missas como se fosse um padre.Impressionada e feliz - porque, na altura, ser padre era ter um estatuto importante - a mãe de Hans incentivava a criança a manter o amor por Deus e chegou mesmo a costurar-lhe uma gola branca, igual à dos padres, para o menino usar por cima da roupa. O destino de Hans estava, assim, muito fácil de prever: o jovem foi crescendo e, com ele, foi aumentando a obsessão pelos rituais religiosos. Alguns anos mais tarde, inscreveu-se no seminário de Mainz e começou a estudar para padre.
No entanto, nem tudo era perfeito no aparentemente santificado Hans. Sem que ninguém conseguisse entender bem, o menino tinha como passatempo preferido - além das “missas” caseiras - sentar-se perto do matadouro da cidade e ficar a assistir ao abate e desmembramento de vacas e porcos para consumo de carne. Na verdade, Hans conseguia passar horas a ver aquele espetáculo sanguinário. O mistério viria a ser desfeito vários anos mais tarde, por peritos médicos: Hans tinha uma tara sádica e sentia-se excitado perante cenas de agressão.
“Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”
Hans Schmidt tinha 25 anos quando, em 1906, foi ordenado padre. De acordo com os registos, a cerimónia foi feita à noite, contrariando o processo habitual, e o jovem sacerdote foi colocado numa igreja nas proximidades. No entanto, o início de carreira do rapaz ia ser tudo menos pacífico.Na primeira igreja onde esteve, Hans ficou pouco tempo. Alegando incompatibilidade e conflito, os superiores expulsaram-no e enviaram-no para outra paróquia - procedimento que havia de ser repetido pelo menos mais quatro vezes, em quatro igrejas diferentes. Parecia que Hans não se dava com ninguém.
No seu quarto posto de trabalho, contudo, o cenário só haveria de piorar: Hans foi formalmente acusado de falsificar documentos, nomeadamente relativos às suas habilitações, e foi levado a tribunal. O juiz, no entanto, aceitou as alegações de que Hans sofria de distúrbios psicológicos e não o condenou. O mesmo perdão não foi concedido pela igreja: Hans estava suspenso do sacerdócio e não podia voltar a vestir a batina.
“Transformai-vos pela renovação da vossa mente”
Sem emprego e com a reputação estragada, Hans só tinha uma saída: afastar-se. Juntou uma ajuda financeira dada pelo pai e algumas esmolas que tinha extorquido a fiéis idosos enquanto tinha sido sacerdote e fugiu para os Estados Unidos, onde se instalou no Kentucky. Novamente munido de diplomas e cartas de recomendação falsificadas, Hans entrou em contacto com os representantes da Igreja Católica na América do Norte e conseguiu uma colocação na paróquia de St John.O problema é que mudar de ares não muda a pessoa que os respira. Não tinha passado muito tempo desde a chegada aos EUA quando Hans voltou a envolver-se em conflitos, desta vez com os líderes religiosos de Louisville. Mais uma vez, o padre foi transferido, desta vez para a igreja de S. Boniface, na zona este da baixa de Manhattan, em Nova Iorque.
Foi na passagem pela cidade que nunca dorme que o caminho de Hans Schmidt se cruzou com o de Anna Aumuller, uma jovem austríaca de 21 anos que imigrara para a América e trabalhava na paróquia a fazer limpezas. A paixão entre os dois foi imediata e nenhum deles resistiu: a relação aconteceu.
“Não há temor no amor”
Hans e Anna mantiveram um caso durante vários anos. Os responsáveis pela igreja de St. Boniface, no entanto, não andavam totalmente distraídos e acabaram por descobrir os amantes. Em consequência, Anna foi despedida e Hans foi novamente transferido, agora para a igreja de St. Joseph, no Harlem.O jovem casal haveria, contudo, de provar que o amor não conhece barreiras. Depois de serem ambos afastados da paróquia, mantiveram-se juntos e Hans até arrendou um apartamento para Anna viver. Num dia especial, viria inclusive a casar com a jovem - já que, como padre, não podia fazer uma cerimónia oficial, celebrou, ele próprio, o casamento dos dois num altar improvisado. Perante Deus, estavam unidos pelo matrimónio.

A bela história de amor foi bonita enquanto durou, mas um dia havia de conhecer um fim. Esse fim chegou quando, em 1913, Anna procurou Hans e lhe deu a melhor notícia da sua vida: estava grávida. O padre, no entanto, não partilhou do mesmo entusiasmo quando soube que, aos 31 anos, ia ser pai. Esconder um casamento era uma coisa, esconder um filho era outra completamente diferente - e impossível de conseguir.
Frio e calculista como sempre, no dia 2 de setembro desse ano Hans foi ao apartamento que arrendava em Broadhurst Ave, em Manhattan, e decapitou Anna com uma enorme faca de cozinha. Não satisfeito, serrou o corpo ao meio e embrulhou as partes em fronhas de almofada, que depois atirou ao rio Hudson presas com um fio a duas pedras de xisto.
“Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto”
Obra de Deus ou não, a verdade é que desta vez Hans Schmidt não haveria de escapar impune. No dia 5 de setembro, dois rapazes passeavam em Nova Jérsia ao longo da margem do rio Hudson quando viram uma fronha de almofada a boiar na água. Movidos pela curiosidade, apanharam-na para ver o que tinha dentro e depararam-se com a parte superior de um corpo serrado ao meio. Alguns dias depois, mais abaixo no rio, apareceu a segunda fronha, com a parte inferior do corpo e ainda com as pedras atadas.Porque a pedra de xisto era rara em Nova Jérsia mas muito comum em Nova Iorque, a polícia entregou as provas ao departamento de investigação em Manhattan. Ali, a autópsia confirmou que o corpo seria de uma mulher, com menos de 30 anos, que teria tido um parto prematuro poucas horas antes de ser assassinada. Por outro lado, o monograma bordado nas fronhas de almofada conduziu os detetives à fábrica que os produziu, que por sua vez tinha o registo dos dados da cliente: Anna Aumuller, residente em Nova Iorque.
Chegados ao apartamento, os polícias não tiveram dúvidas que ali se tinha dado o horrendo crime: o papel de parede estava, a toda a volta, manchado de sangue, e o chão tinha manchas de sangue seco que alguém tentara limpar. Na borda do lavatório, vários pedaços de sabão, e, nos armários, lenços de pano com o mesmo monograma que se via nas fronhas de almofada.
Em conversa, o senhorio de Anna contava aos agentes que a jovem vivia ali sustentada por um familiar, que pagava as rendas todos os meses e apoiaria a rapariga até ela casar. Ao abrirem as duas grandes arcas que a jovem guardava na sala, os polícias encontraram o resto da informação: além da faca e da serra utilizadas no crime, que tinham sido ali depositadas depois de uma limpeza mal sucedida, havia cartas e documentos que comprovavam que Anna tinha trabalhado em St. Boniface. Em visita à paróquia, os detetives souberam que Ana tinha sido despedida por se envolver com o padre - padre que estava agora em Manhattan.
“Feliz aquele cuja consciência não o acusa”
Quando foi procurado pelos polícias, Hans Schmidt não conseguiu esconder a cara de choque - que o denunciou imediatamente. Em poucos minutos, o sacerdote admitia o crime, a falsificação de documentos e até a falsificação de cartões de visita que o apresentavam como médico, profissão que chegara a exercer mesmo não tendo curso de medicina.
Levado a tribunal e com provas irrefutáveis contra si, Hans tentou repetir a proeza que fizera uns anos antes na Alemanha: confessou tudo, fingiu arrependimento e declarou que sofria de distúrbios psicológicos que o tornavam inimputável. De lágrimas nos olhos, Hans jurou em tribunal que amava Anna com todas as forças, mas que “os sacrifícios têm de ser consumados com sangue”. No primeiro julgamento, a 7 de dezembro de 1913, a estratégia resultou: uma parte do júri público queria prender Hans, mas a outra parte fraquejava perante a ideia de prender um padre e agarrava a teoria da insanidade - afinal, só mesmo a loucura poderia explicar que um padre cometesse tamanha atrocidade.
O juiz principal, contudo, trocou as voltas aos advogados e interveio, ele próprio, no segundo julgamento, dirigindo-se diretamente ao júri público: “usem o vosso bom senso… a vossa experiência com a humanidade. Nem todos os desequilíbrios mentais justificam um crime”, apelou.
A condenação foi, desta vez, inevitável. No dia 18 de fevereiro de 1916, Hans Schmidt sentava-se na cadeira elétrica, na famosa prisão de Sing Sing. Cá fora, jornalistas, investigadores e curiosos dedicavam-se a procurar mais rastos deixados pelo padre, e novos crimes vieram à tona - todos até aí encobertos pelos líderes religiosos, que escondiam os ataques de Schmidt para não darem má fama às igrejas.
“É a mentira e não a verdade que prevalece na terra”
Num segundo apartamento que o padre comprara, máquinas de falsificar dinheiro foram encontradas, bem como os planos de uma parceria entre Schmidt e um dentista na qual ambos cometeriam uma série de assassínios para poderem ficar com o dinheiro das seguradoras dos pacientes; em Louisville, o corpo de uma menina de nove anos fora encontrado desmembrado na cave da igreja de St. John durante a estadia de Hans, sendo que na altura um funcionário da paróquia foi acusado e condenado pelo crime; até em Aschaffenburg uma menina fora encontrada morta perto da casa de Hans quando o padre ainda era adolescente, não tendo sido encontrado qualquer suspeito na altura.Os crimes que vinham a público eram cada vez mais e mais assustadores. Afinal, quantos mais segredos guardaria a Igreja Católica dentro das paredes das igrejas? Pode dizer-se que Hans Schmidt trouxe um novo alerta perante a comunidade religiosa nos Estados Unidos: afinal, Deus não tem apenas bons servos. Alguns são infiltrados pelo Diabo.