"Pata Seca", coração cheio: a história do escravo que viveu para ter filhos

Viveu, literalmente, para se reproduzir. Esta é a história do escravo “Pata Seca”, o “pai” de uma cidade brasileira.

Escravos reprodutores eram comuns

Nasceu com nome de escravo, mas com uns genes que lhe deram algumas alegrias. Pata Seca, o escravo reprodutor mais famoso do Brasil, teve tantos filhos que há uma cidade onde uma grande percentagem da população carrega o seu sangue nas veias. Conheça a história.
 

O rei dos escravos

Pata Seca nasceu a 17 de dezembro de 1827 no seio de uma família escrava, no Brasil. Na época, escravos não podiam ter nome de branco, pelo que alcunhas ou nomes de animais eram a única forma de os distinguir dos demais.

À medida que foi crescendo, contudo, Pata Seca foi-se destacando no meio da multidão, incluindo dos próprios irmãos: do alto dos seus 2,18 metros de altura, o jovem exibia membros muito longos e magros - que justificaram a alcunha de Pata Seca.

Viria a ser esta genética a mudar o seu destino para sempre: em 1949, numa feira da vila de Sorocaba, foi comprado pelo tropeiro Francisco Henrique, um branco fascinado pela fisionomia do rapaz e fervoroso crente na lenda que rezava que homens de pernas finas geravam mais filhos rapazes. Pata Seca estava, assim, destinado: ia ser um escravo reprodutor.
 

A máquina de fazer escravos

Filho de uma família abastada, Francisco Henrique começou como tropeiro mas rapidamente subiu de posto social. Quando o pai morreu, o jovem recebeu uma herança avultada e resolveu investi-la. Comprou fazendas e um total de sete escravos: Pata Seca, Morcego, Lobo, Cegonha, Frango, Sapo e Coruja.

Francisco Henrique era agora Visconde da Cunha Bueno. Com o rendimento que as terras lhe davam comprava mais fazendas - e precisava de escravos para trabalhar nelas. Para os conseguir só tinha duas hipóteses: ou comprava mais homens ou fazia com que as suas escravas tivessem filhos. O Visconde preferiu a segunda opção, e era aqui que Pata Seca entrava em ação.

Bem alimentado e acompanhado por um médico para não adoecer, Pata Seca tinha como função deitar-se com todas as escravas das fazendas do Visconde. Por ter as pernas finas, acreditava-se que daria muitos filhos homens - a mão de obra mais valorizada -, por isso era exigido a Pata Seca que todos os dias levasse uma mulher para a cama. Os filhos começaram a aparecer.

Em 1874 o Visconde comprou 55 léguas de terreno e fundou a Sesmaria do Quilombo (hoje chamada Fazenda de Santa Eudóxia). Nela, cerca de 540 escravos trabalhavam um milhão e seiscentos mil pés de café. 

Pata Seca foi levado para Santa Eudóxia com a missão habitual de aumentar o número de escravos. Por ser um escravo reprodutor e precisar de se manter saudável e vigoroso, o homem vivia na casa principal e tinha regalias quase iguais às de um membro da família. Além de ser escravo reprodutor, Pata Seca cuidava ainda dos cavalos do Visconde e trabalhava como cocheiro, indo buscar a correspondência todos os dias à cidade de São Carlos.
 

As máquinas também amam

Foi nas viagens até São Carlos que Pata Seca conheceu Palmira. Palmira, também ela escrava, era uma negra que trabalhava perto do posto dos correios e que se deixou encantar por aquele homem alto e esguio que todos os dias ia buscar cartas.

O romance não tinha muito por onde se prolongar, por isso Pata Seca foi direto ao assunto e pediu Palmira em casamento. A rapariga aceitou, subiu para a garupa do cavalo e seguiu com ele para a fazenda.

Por esta altura, Pata Seca já tinha produzido cerca de 200 filhos nas fazendas do Visconde da Cunha Bueno. No entanto, o que hoje em dia podia ser encarado como uma dificuldade foi, na altura, motivo de orgulho para todos: Palmira entendeu que, de todas as mulheres com quem o rapaz se deitara, era a única que lhe tomara o coração, e o Visconde viu na união mais uma oportunidade para nascerem pequenos escravos. O casamento do rapaz foi, por isso, bem recebido pela família, que até lhe fez uma festa para comemorar.
 

A liberdade dos escravos

Quando, em 1888, a escravatura foi abolida no Brasil, o Visconde da Cunha Bueno não deixou Pata Seca partir sem lhe agradecer o serviço prestado. Ofereceu-lhe um dote de vinte alqueires de terra e o escravo mudou-se para lá com a mulher e os nove filhos que entretanto tiveram.

A quinta dos ex-escravos chamava-se “Sítio Pata Seca”, em homenagem ao nome do chefe de família, e produzia rapadura, verduras, ovos e frango para vender. Pata Seca, no entanto, depressa abandonou o nome que o tornara famoso e ganhou “nome de branco”, como lhe chamavam. Era agora Roque José Florêncio, fazia negócios na cidade montado numa bela égua preta e transformara-se num cidadão de classe média.
 

Longa vida a quem é bom

Quase em jeito de recompensa por ter aguentado décadas de escravatura e exploração como se de um animal de criação se tratasse, Roque Florêncio viveu bem mais do que apontava a expectativa mais otimista. Idoso e a contar mais de 200 filhos gerados na senzala, Roque morreu a 17 de fevereiro de 1957, com 130 anos de idade, vítima de insuficiência cardíaca, esclerose e senilidade.

Hoje, no “Sítio Pata Seca”, que ficou nas mãos dos filhos do escravo com Palmira, todos os anos se celebram as festas juninas (em honra de Santo António), e Pata Seca é homenageado pela população. Pela cidade de Eudóxia, há ruas com o nome do escravo e ninguém, de geração nenhuma, esquece o homem que viveu para reproduzir.

Um estudo conduzido por Marinaldo Fernando de Souza, psicólogo investigador da Universidade Estadual de São Paulo, concluiu que cerca de 30% da população de Santa Eudóxia é descendente de Roque. A ser verdade, o escravo não foi apenas uma máquina de fazer bebés, mas foi também um povoador.

Por este motivo, os netos de Roque empenham-se agora na procura dos primos. O objetivo é reunir a família, trocar memórias e experiências e, acima de tudo, juntar o máximo de registos possíveis para que Madalena, neta do escravo, possa doar o material todo a um museu antes de morrer. É caso para dizer, a história não fala do escravo, mas o escravo fez História. E não merece ser esquecido.

 

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