Uma lady no céu: quando as hospedeiras eram rainhas nas nuvens

Bonitas, elegantes, cultas e viajadas. Que mulheres não queriam ser assim? Esta semana voltamos no tempo e relembramos a época em que ser hospedeira de bordo era uma profissão de sonho.

Uma lady no céu: quando as hospedeiras eram rainhas nas nuvens
O retrato da época em que ser hospedeira era um sonho

Imagem: Mary Lou Bigelow Quem nasceu ou cresceu nas décadas de 60 e 70 - ou quem, sendo mais jovem, acompanha as séries de época - certamente se lembrará de um tempo, não muito longínquo, em que as mulheres se queriam embonecadas e femininas. Do mesmo modo se lembrará de qual era o expoente máximo de uma vida de glamour e estilo: ser hospedeira de bordo numa companhia aérea.

A profissão de hospedeira, muito exclusiva e ao alcance de muito poucas, era um sonho tanto para as mulheres como para os homens, que sonhavam com elas sempre que as viam atravessar os terminais no aeroporto. Mas como entrar para o grupo das "ladies do céu"? E seria assim tão simples e glamourosa a vida das mulheres nos aviões?


Primeira etapa: romper tradições

Quando uma mulher decidia correr atrás de uma carreira na aviação, o primeiro desafio que enfrentava estava logo ali, dentro de casa. Nos anos 60, o futuro que se adivinhava para a maioria das mulheres era muito pouco variável: iam estudar até ao fim da adolescência, depois esperava-se que casassem (não muito depois dos vinte anos), criassem filhos e cuidassem da casa e do marido que as sustentasse. As mais rebeldes - desde que tivessem o consentimento do marido - poderiam ousar trabalhar, se não se importassem com os olhares de reprovação das mães e de outras mulheres que duvidavam muito da qualidade maternal de quem sai de casa todos os dias para o emprego.

Laurie Power, ex-hospedeira da TWA, lembra-se bem do momento em que se transformou na verdadeira ovelha negra da família. Para os seus pais, ser hospedeira e viajar pelo mundo não era uma carreira decente nem adequada a uma mulher, cujo papel devia ser ficar em casa a cuidar da família. Mas esse era precisamente o motivo que levava tantas jovens a fazer as malas e partir. "[As mulheres] iam embora", explica Laurie, "porque não aguentavam a monotonia da vida diária, que incluía o casamento, as aulas, lavar a roupa à segunda e passar a ferro à terça". É que mesmo que Laurie cedesse na ideia de ser hospedeira, as opções de trabalho para as mulheres naquela altura não eram propriamente variadas: eram professoras, enfermeiras ou secretárias. "[Comparando,] a vida de hospedeira ganhava uma aura mais dramática e interessante", conta. Isso e a promessa de um mundo novo com que as companhias aéreas aliciavam as jovens. "O casamento é bom, mas não queres ver o mundo primeiro?" desafiava um anúncio de recrutamento da United Airlines em 1967.

Depois de tomada a decisão - algumas mulheres até abandonavam a faculdade para se dedicarem aos céus -, chegava o segundo desafio: viverem sozinhas. Apesar de a sociedade começar a aceitar algumas modernizações, ainda não era propriamente comum uma mulher jovem sair de casa dos pais para ir viver sozinha. No entanto, esse era o destino das hospedeiras, até porque muitas vezes (sobretudo no início da carreira) os voos eram adjudicados em cima da hora e isso implicava estarem sempre prontas para pegar na mala e partir. Algumas partilhavam casa entre si, mas, ainda assim, tinham de ganhar independência. Era um verdadeiro teste de fogo que não queriam, de todo, falhar.


Segunda etapa: atingir a perfeição

Se, por um lado, a vida de hospedeira exigia das mulheres uma grande independência e coragem, por outro desengane-se quem pensa que as companhias aéreas lhes davam autonomia para serem quem queriam ser. Meninas que quisessem dominar os céus tinham de cumprir um rígido quadro de regras e requisitos, qual exército de mulheres todas iguais - e esse era o maior desafio de todos para as mais feministas, que viam na profissão um escape aos espartilhos sociais.

Antes de mais, para sequer serem admitidas para formação as hospedeiras tinham de cumprir uma série de requisitos físicos: além de serem mulheres (condição obrigatória), não podiam ter menos de 1,58m nem mais de 1,80m. O peso máximo admitido era de 63Kg para todas, embora a proporção do corpo também fosse fator eliminatório - podiam ser recusadas se cumprissem o peso mas tivessem a barriga saliente, por exemplo -, e o bolo de aniversário não podia contar com menos de 20 velas nem com mais de 27. Além disso, as meninas que quisessem mesmo ser hospedeiras entravam já com data de saída: as companhias aéreas rescindiam todos os contratos com hospedeiras que completassem 32 anos, por considerar que deixavam de ser jovens o suficiente para o serviço.

Se as jovens candidatas passassem esta primeira fase de seleção - que deixava logo de fora umas largas dezenas de meninas -, passavam à fase seguinte, que não era mais fácil: a escola de hospedeiras. Nos anos 60, todas as companhias aéreas tinham a sua própria escola de hospedeiras, e pode dizer-se que eram verdadeiros resorts de luxo: grandes, amplos e modernos, os edifícios incluíam "mimos" como piscina, court de ténis e até praias privativas, sendo que alguns ficavam mesmo dentro do perímetro de enormes resorts turísticos, como era o caso da escola da Eastern Airlines, em Miami. Por ser um espaço tão exclusivo e associado à profissão de sonho quase impossível de alcançar (já dissemos que largas dezenas de mulheres ficavam de fora só por serem baixinhas ou terem o cabelo pouco bonito?), e também porque ali viviam algumas das mulheres mais bonitas do país, eram comuns as tentativas de invasão. Por este motivo, as escolas de hospedeiras contavam com porteiros, seguranças e, em alguns casos, até grades nas janelas.

Nas escolas de hospedeiras, as candidatas aprendiam a ser o mais perfeitas possível. Na época, viajar de avião era um luxo apenas ao alcance da mais alta sociedade, pelo que as jovens iam servir gente muito importante. Era essencial que soubessem estar, servir e até conversar se os passageiros quisessem. Assim, as aulas incluíam - além da formação habitual sobre segurança - aulas de cozinha, maquilhagem, penteados e manicura. Ali aprendia-se a estar, a andar, a apanhar objetos do chão com delicadeza, a fazer conversa, a enfeitar pratos. Era uma espécie de escola de Gueixas dos tempos modernos.

Depois de alguns meses de formação, as candidatas a hospedeira eram sujeitas a uma avaliação final. Do grupo inteiro, apenas uma mão cheia delas seria efetivamente selecionada para ocupar um lugar num avião. Essas sortudas, no entanto, não podiam ainda respirar de alívio: faltava a entrevista e o teste psicotécnico. Só para ter uma ideia, o "filtro" de seleção era tão apertado que era mais fácil entrar num curso em Harvard do que ser hospedeira numa companhia aérea.
 

Terceira etapa: viver o sonho

Depois de uma formação tão rígida, chegava finalmente a hora de as hospedeiras viverem o sonho. Os primeiros 6 meses ainda eram de estágio, mas as jovens já eram enviadas em viagens curtas para aprenderem com as mais velhas. Entretanto, as companhias aéreas tratavam de garantir que se mantinha o cumprimento dos requisitos: antes de cada viagem, todas as hospedeiras passavam pela balança e por uma revista. Uma pisadura numa perna, o cabelo despenteado ou o esquecimento do chapéu davam direito a ficar em terra. Em casos mais graves, hospedeiras apanhadas a fumar de farda ou que aparecessem no trabalho com a pele morena ou queimada pelo sol podiam enfrentar o despedimento.

Ainda assim, a vida depois de entrar nas companhias aéreas ficava bem mais leve. Ao viajarem pelos quatro cantos do mundo, as hospedeiras de bordo conheciam muita gente da mais alta sociedade e ganhavam uma cultura fora do comum para a época. Por este motivo - e porque um grupo de meninas bonitas fica sempre bem numa festa -, as hospedeiras cedo se transformavam numa espécie de socialites. Eram convidadas para festas, eventos importantes, inaugurações de hotéis e restaurantes caros. Os homens, empresários, presidentes e príncipes, apreciavam a companhia e a beleza daquelas jovens, ofereciam-lhes presentes e convidavam-nas para viagens e grandes festas. Laurie admite que a vida de uma hospedeira conseguia ser tão glamourosa como a de uma estrela de Hollywood: "éramos uma espécie de enfeite", explica.

Ao longo dos anos, as hospedeiras começaram a ganhar cada vez mais fama e aumentou o misticismo em torno da profissão. As meninas, tão perfeitas, começavam a transformar-se em verdadeiros "sex symbols" e davam corpo ao conceito de mulher ideal. As companhias aéreas, atentas, começaram a perceber e a aproveitar-se desse facto: a Easter Airlines, por exemplo, publicitava a escola de hospedeiras de Miami como "a melhor escola de noivas do país" - e a verdade era que, de facto, muitas hospedeiras acabavam por seduzir os homens ricos com quem se cruzavam nas viagens. Foi o caso de Shirlee, a quinta mulher de Henry Fonda, e de Susan Gutfreund, a hospedeira da Pan Am que seduziu o empresário John Gutfreund. O próprio sultão do Brunei era casado com uma ex-hospedeira de bordo.

Tanta beleza, perfeição e fama acabou por ter, no entanto, um preço. Cada vez mais populares, as hospedeiras deixaram de ser apenas uma parte do serviço de transporte aéreo e passaram a ser, elas próprias, o serviço. Estava lançado o fetiche com as rainhas das nuvens.
 

Quarta etapa: turbulência na cabine

Por saberem que as meninas eram, cada vez mais, um elemento atrativo nos aviões, as companhias aéreas começaram a apertar ainda mais o cerco às hospedeiras. Logo na seleção, as candidatas tinham de garantir que eram solteiras, não tinham filhos e não pretendiam casar enquanto estivessem ao serviço da empresa. Em casos excecionais, divorciadas e viúvas também eram aceites - o que importava era que estivessem, de certa forma, disponíveis.

Esta visão das companhias aéreas era, a princípio, dissimulada. No entanto, os primeiros a entrar no espírito foram os pilotos: qualquer hospedeira que tenha trabalhado nos anos 60 lhe vai contar histórias sobre os avanços dos pilotos sobre as meninas. Estes avanços eram particularmente insistentes quando as meninas ainda estavam em fase de estágio, uma vez que ainda eram inexperientes e tendiam a ceder com mais facilidade, iludidas e deslumbradas pela profissão e, claro, pelas divisas douradas nos ombros das fardas. Na altura, as hospedeiras em formação usavam a saia sempre abaixo do joelho (só podiam subir a bainha depois de acabarem o estágio), por isso eram fáceis de distinguir.

A promiscuidade entre hospedeiras e pilotos começou, no entanto, a ser conhecida fora do ambiente das companhias aéreas. Atraídos pela aura de mistério em torno destas mulheres, os produtores de Hollywood começavam a fazer filmes sobre a profissão - que, cada vez mais romanceados, contribuíram para a disseminação da ideia de que as hospedeiras eram mulheres promíscuas, disponíveis e desinibidas. Esta onda foi também acompanhada pela imprensa e pela indústria literária, de onde saiu aquela que foi a publicação mais odiada no mundo da aviação: "Coffee, Tea or Me?" ("Café, chá ou eu?"), lançada em 1967 e que sugeria que as hospedeiras se "vendiam" como parte do serviço de transporte aéreo.
 

Quinta etapa: café, chá... ou eu?

Por esta altura, as companhias aéreas deixaram de disfarçar e começaram a assumir as hospedeiras como produto para venda em conjunto com o serviço. A primeira foi a Braniff International Airways, que contratou o estilista Emilio Pucci para desenhar as novas fardas. Feitas à medida para cada mulher, as roupas ficavam absolutamente perfeitas e faziam de qualquer hospedeira uma verdadeira modelo. Pouco depois, a TWA entrou na corrida e lançou uma campanha que prometia "o fim das viagens de rotina com hospedeiras a condizer". Durante a campanha, que durou 8 meses, as hospedeiras vestiram fardas de papel durante os voos, em modelos que copiavam as roupas típicas do país de destino. Por exemplo, se viajassem para a Grécia vestiam togas, e se viajassem para Paris vestiam minissaias. A campanha, claro, foi um sucesso, mas teve de ser interrompida porque o papel das fardas era tudo menos resistente - uma hospedeira chegou a pegar fogo a ela própria a meio de um voo, por acidente, enquanto preparava as refeições.

Num estilo mais arrojado, a Pan Am acompanhou a moda e lançou um anúncio de rádio, no mínimo, provocador, durante o qual perguntava ao ouvinte "como gosta da sua hospedeira?", como quem pergunta se o cliente quer o bife bem ou mal passado. Fazendo uso de uma mensagem com duplo sentido, a Continental Airlines foi na mesma onda e incluiu nos anúncios uma (pouco) subtil referência às suas hospedeiras, que vestiam uniformes dourados. No anúncio publicado em vários meios de comunicação, a empresa apresenta-se como "o orgulhoso pássaro de cauda dourada".

Nesta fase, a comunidade de hospedeiras dividia-se entre as que achavam a publicidade das empresas desprestigiante e as que entendiam a estratégia. Laurie Power pertencia ao segundo grupo: "fazia parte naquele tempo, quando [as empresas] não tinham mais nada para vender. Toda a gente tinha filmes, toda a gente tinha refeições de vários pratos, toda a gente tinha tudo - o que é que eles podiam fazer?", justifica. No entanto, a publicidade das companhias aéreas só viria a ficar mais agressiva. Em 1971, a National Airlines deixou para trás todo o pudor e criou um slogan que deixou as hospedeiras em fúria: "Sou a Linda [ou outro nome feminino]. Voa comigo.". No mesmo ritmo, a Continental aproveitou os resquícios da publicidade do "orgulhoso pássaro de cauda dourada" e foi mais longe com um "abanamos mesmo a cauda por si".

Fruto da atitude das companhias aéreas, também a atitude dos passageiros em relação às hospedeiras sofreu uma alteração radical. Se antes as mulheres eram olhadas quase como elementos maternais, agora eram vistas como objeto sexual. Laurie Power fala em seduções por mera diversão e lembra uma viagem em que, quando passava no corredor com uma pilha de copos para lavar, um passageiro meteu um cartão de contacto dentro de um dos copos e lhe disse "Pega. Liga-me". A partir daí, a situação foi sempre piorando. Apalpões, assédio, mãos em partes privadas... valia tudo.
 

Sexta etapa: ordem no Olimpo

O desespero das hospedeiras a bordo dos aviões atingiu níveis de tal forma alarmantes que se tornou claro que algo tinha de ser feito. Assim, quem tomou as rédeas da situação foram as próprias mulheres, que, unidas, criaram a Associação das Assistentes de Bordo, uma espécie de sindicato com algum poder legal, que tratou de "arrumar" a casa e de garantir alguns direitos para as profissionais. A associação entrou numa luta legal com as empresas de aviação e conseguiu várias vitórias: o fim do limite de idade para se ser hospedeira, o fim da proibição de casamentos e filhos, a criação de uma estrutura de carreira para hospedeiras e o fim da discriminação dos homens, que passaram a ser, também eles, aceites para trabalhar nos aviões. O termo "hospedeira" também deixou de ser usado e foi, oficialmente, substituído pelo termo "assistente de bordo".

Ao mesmo tempo, a evolução da economia a partir dos anos 70 deu uma ajuda ao processo de recuperação da reputação das hospedeiras: com a melhoria do poder económico e a descida dos preços das viagens, andar de avião deixou de ser um luxo exclusivo dos mais ricos e passou a estar ao alcance da população em geral. Para fazer negócio num mercado com cada vez mais competição, as companhias aéreas começaram a cortar nos custos - ao ponto em que hoje, em grande parte das operadoras, nem sequer são servidas refeições durante o voo. Os assistentes de bordo deixaram de estar ali para servir os passageiros e passaram a ser vistos como responsáveis pela segurança dentro do aparelho.

Olhando para as companhias de agora, Laurie Power admite que desapareceu todo o charme da profissão. No entanto, reconhece que, agora sim, ser assistente de bordo é uma carreira possível e reputada como qualquer outra. Se, com isso, o mundo da aviação - e os passageiros, em geral - perdeu ou ganhou... fica ao critério de cada um.

 

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